Cidadania e Justiça
Incra lança projeto de manejo sustentável da fauna amazônica
Diagnóstico
O Amazonas receberá um projeto inédito do Incra que concilia preservação ambiental e uso racional dos recursos naturais – no caso, a fauna da Amazônia – em uma atividade econômica potencialmente lucrativa.
O manejo de rebanhos como os de jacarés, queixadas e pacas pela população tradicional foi assegurado a mais de 2,4 mil famílias que vivem em 17 projetos de assentamento (PAs) e assentamentos agroextrativistas (PAEs) localizados em cinco municípios do estado.
A possibilidade é fruto de um convênio firmado com o Núcleo de Pesquisa e Conservação da Fauna e Flora Silvestre (NPC/Fauna), entidade selecionada por meio de Chamada Pública promovida pela Superintendência do Incra em Manaus.
O investimento do governo federal será de R$ 8,1 milhões, com sete metas a serem alcançadas até 2018. A primeira delas é a sensibilização das comunidades para a conservação e o uso racional da fauna, que terá início no mês de dezembro.
O NPC/Fauna vai elaborar, ainda, um diagnóstico para cada um dos 17 assentamentos, com indicadores físicos, sociais, ambientais e econômicos necessários para que as famílias assentadas possam viabilizar a conservação e o uso racional da fauna, quer seja para fins econômicos ou para subsistência.
Após o cumprimento destas duas primeiras metas, o Incra e o NPC/Fauna iniciarão os trabalhos de manejo, com eventos de capacitação.
Posteriormente, serão instalados abatedouro e distribuidora de carnes de animais exóticos em Manaus, a fim de viabilizar a venda no atacado e no varejo, além da divulgação da sustentabilidade da cadeia produtiva da fauna.
A previsão é a de que a distribuidora seja implantada em 2017, após a instalação e operação do abatedouro.
O coordenador geral de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Incra, Carlos Eduardo Portella Sturm, abriu as atividades de sensibilização dos assentados na última sexta-feira (7), no PAE Piranha, em Manacapuru (AM).
De acordo com Sturm, o convênio firmado pela autarquia atende a uma demanda antiga dos assentados em uma intervenção inédita que concilia a conservação dos recursos naturais com a geração de renda.
“Já nos reunimos com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, o IPAAM, para garantir a implantação desse projeto, que visa aumentar a renda das famílias assentadas com o manejo correto da fauna local. É uma grande oportunidade para o Estado do Amazonas mostrar ao País que é possível conciliar atividade econômica com preservação ambiental”, diz o coordenador.
Viés ambiental
O trabalho de preservação e ampliação da fauna amazônica por meio de manejo sustentável foi viabilizado pelo corpo técnico da Coordenação Geral de Meio Ambiente e Recursos Naturais da autarquia.
“Sem a dedicação e o acompanhamento destes profissionais, o convênio não conseguiria ser firmado com esse viés ambiental tão coerente com as demandas atuais de sustentabilidade da floresta”, destaca o diretor de Obtenção de Terras do Incra, Marcelo Afonso.
A implantação das cadeias produtivas de animais silvestres permitirá a formação de rebanhos de jacarés, tartarugas, pacas, queixadas, entre outras espécies nativas amazônicas.
“Todo esse trabalho terá a licença dos órgãos ambientais e serão economicamente viáveis”, completa o diretor.
No primeiro encontro do Incra com os assentados para explicar os detalhes do projeto, o clima foi de otimismo e confiança, pois as atividades propostas já fazem parte do cotidiano daquelas pessoas que vivem, em sua maioria, à beira de grandes rios, como o Solimões.
Dali vem a maior parte do sustento das famílias, com as atividades de pesca. A expectativa é a de que a ampliação da forma de exploração dos recursos naturais resulte em aumento significativo da renda dos assentados extrativistas.
Para os irmãos Júlia e Aloízio Maciel Batista, que vivem na comunidade Nossa Senhora das Graças, do PAE Piranha, o projeto do Incra trará inúmeros benefícios, a começar pela estruturação das atividades produtivas.
“Nos nossos lotes, criamos galinha e pescamos para nossa subsistência, e plantamos malva para vender na cidade de Manacapuru. Agora estamos muito animados com a possibilidade de criarmos jacarés para alimentar esse Brasil todo”, diz dona Julia.
O irmão, morador de um lote vizinho, já tem experiência na caça do jacaré-açu, mas desconhecia o potencial da atividade.
“Achava que só podia aproveitar o couro dele, mas agora vai ficar tudo mais fácil para a gente e vamos sair ganhando mais dinheiro com o que a floresta nos oferece, de forma continuada e com supervisão dos técnicos”, complementa seu Aloízio.
Conforme explicou a superintendente regional do Incra/AM, Maria do Socorro Marques Feitosa, o PAE Piranha abrigará o projeto-piloto do convênio e a participação dos assentados nesse processo de capacitação será fundamental para o sucesso do empreendimento. “Queremos que essa iniciativa inédita na história do Incra seja referência para outros estados”, completa.
Nichos de mercado
O professor e engenheiro agrônomo do NPC/Fauna, Paulo Bezerra Silva Neto, vai coordenar os trabalhos no Amazonas juntamente com a equipe de fiscalização do convênio formada pelos servidores do Incra/AM David Gonçalves, Leocinira Santos e Renata Lima.
Nas primeiras etapas, biólogos do NPC/Fauna farão os trabalhos de sensibilização junto aos assentados. De acordo com o professor, o consumo de carnes exóticas é uma tendência em nichos de mercado com preços atraentes para os produtores.
“Em São Paulo, o preço da carne do jacaré-açu é de R$ 35 o quilo e o de queixada tem um valor ainda maior, de R$ 76, em média.
Aqui no Amazonas, já vi famílias ribeirinhas trocarem essas carnes de alto valor agregado por frango. Com o manejo correto da fauna, é possível trocar um quilo de carne de jacaré por nada menos do que 15 quilos de frango”, explica.
O diferencial do convênio assinado com o Incra, conforme o engenheiro agrônomo, é que serão trabalhadas todas as etapas da cadeia produtiva, desde a capacitação para a produção em escala, passando pelo processamento, armazenagem, distribuição e comercialização.
As carnes de animais silvestres são reconhecidas pelos serviços de fiscalização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e o manejo será controlado pelos órgãos ambientais competentes federal e estadual (Ibama e Ipaam).
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