Cidadania e Justiça
'Hoje, o jovem quer ficar e fortalecer nossa identidade', diz líder quilombola
Consciência Negra
Caminhando sem pressa entre as casas do Povoado do Engenho II, no Sítio Histórico Quilombola Kalunga, Seu Sirilo aponta aquelas em que moram familiares seus. São praticamente todas, na vila com pouco menos de 40 residências e 600 moradores, em Cavalcante, interior de Goiás. “Minha mãe morava naquela casinha ali. Aquela outra é de uma tia minha. Aquela lá, de um sobrinho. Aqui todo mundo é parente, né?”
Com 61 anos, Sirilo dos Santos Rosa já foi presidente da Associação do Quilombo Kalunga, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e hoje é membro do conselho fiscal. É líder da comunidade desde 1983, quando o povoado se reuniu para buscar seus direitos como comunidade remanescente de quilombola.
“A gente já vinha sentido um movimento de Sem Terra e de quilombola pelo rádio. Não conhecia nada que não fosse pelo rádio. Um amigo me convidou para ir a Goiânia para uma reunião de movimento dos negros. Vendi um bezerro e fui”, conta enquanto ajeita o chapéu, segundo ele, figurino de agricultor.
A liderança o levou a descobrir muitos direitos dos quilombolas. Foi numa reunião do movimento negro com um juiz que conheceu o mais importante deles: o direito à terra.
"Ele falou que as terras dos nossos antepassados eram sem dúvida nenhuma nossas, que nós tínhamos que reivindicar aqueles locais".
Hoje, a comunidade tem títulos fundiários, garantindo o direito dos moradores ao uso da propriedade histórica.
Junto com as terras, os moradores garantiram outros direitos, como acesso à energia, educação e estradas para ligar o povoado à cidade de Cavalcante (GO), além dos direitos trabalhistas e programas sociais do governo. Sirilo lembra que antes não havia energia, escola ou estrada para acesso a carro.
“A gente ia daqui pra cidade a cavalo ou a pé, com coisas para vender ou trocar por ferramentas, calçados e sal. A viagem demorava 60 dias para ir a Barreiras e voltar".
Sirilo conta que, quando o governo foi demarcar o sítio histórico, deram o nome de Kalunga, que em regiões da África significa “homem feliz”. Para ele, a demarcação do território e todo o desenvolvimento do local transformou a identidade dos moradores descendentes de escravos e limpou de vez o sentimento de inferioridade por ser negro.
“Sou um homem feliz por estar ajudando minha comunidade a se manter. Hoje, nós temos orgulho de ser Kalunga, porque antes nós não éramos enxergados. Nós éramos chamados de Kalunga, mas com racismo. As pessoas nos viam na cidade e falavam ‘lá vem a turma de kalungueiros, cambada de nego preto’. Hoje, com o desenvolvimento e com afirmação da nossa história, não acham mais. Tem gente na cidade que até que ser kalunga agora.”
Desenvolvimento
Para o tesoureiro da associação, Jorge Moreira de Oliveira, 47 anos, a melhoria de vida da população trouxe muito crescimento para a comunidade.
“Se a gente for relembrar os anos 90, e comparar com 2015, nós temos mais de 80% de mudança para melhor. Nos anos 90 a gente não tinha energia, não tinha uma boa estrada, não tinha educação. Nós temos hoje do pré-escolar ao terceiro ano do Ensino Fundamental aqui dentro. Precisa melhorar? Sempre precisa, mas já temos mais da metade do caminho andado”, diz.
Para Seu Sirilo, o desenvolvimento e a modernização da comunidade quilombola não impedem em nada os moradores de exercer a cultura histórica de seus antepassados. Ao contrário: ela se fortalece.
“Sem desenvolvimento, a nossa cultura vai morrer. Porque aí nossos jovens têm que sair para estudar fora, ganhar o dinheiro lá fora. Hoje, eles querem ficar e fortalecer a nossa identidade”.
José Gabriel dos Santos Rosa, de 25 anos, é a prova da juventude que não quer mais sair do povoado. Ele hoje é estudante de Educação no Campo na Universidade de Brasília (UnB) e quer se formar para ser professor nas escolas de Engenho II. Enquanto ajuda na moagem de mandioca para fazer farinha, que depois é dividida por todos os moradores e vendida aos turistas, Gabriel conta que não pretende ir embora.
“Eu nasci aqui. Minha mãe, minha vó, minha bisavó também. Eu fui criado aqui e não pretendo sair tão cedo. Eu acredito que tenho que lutar pelo que é meu e tenho que ficar aqui para cada vez ir melhorando a comunidade para que, os próximos que vierem, encontrem cada vez melhor”, explica o estudante.
“Antes o povo vivia da roça e do que plantava, e alguma criaçãozinha de gado e galinha. Era isso e nada mais. Hoje é diferente, dá para fazer um trabalho, estudar e aproveitar o turismo. Agora tem muita gente que nem planta roça mais”, conta.
Fonte: Portal Brasil

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