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Cidadania e Justiça

"Não teria conseguido sem ajuda", diz atendida pela Casa da Mulher Brasileira

Suporte

Em Campo Grande, unidade pioneira do projeto realizou quase 43 mil atendimentos nos primeiros dez meses de funcionamento
por Portal Brasil publicado: 07/12/2015 02h22 última modificação: 07/12/2015 16h11

Uma noite depois de dar aulas de dança para a terceira idade a contragosto do marido, Isabela* ouviu do parceiro: "se você não conhece o inferno, agora você vai conhecer". Bêbado, ele chutou a porta, pegou sua filha de seis anos que chorava e mandou a menina calar a boca. Disse para a mulher que ela não prestava como mãe. Enquanto isso, a criança falava: “mãe, o pai tá bêbado. Ele vai te bater”.

Esse não foi o início da violência psicológica que Isabela passou durante os doze anos de casamento. Com hábito de muitas bebedeiras, o marido chegava em casa de madrugada alcoolizado e tinha ataques de fúria e ciúmes. Não deixava Isabela conviver com a sua própria família, xingava a todos.

Mas o episódio foi o começo de um basta. Foi o último dia em que a cabeleireira de 45 anos suportou calada a série de abusos sofridos dentro de casa. No dia seguinte, Isabela procurou a Casa da Mulher Brasileira (CMB) de Campo Grande, onde mora, para atendimento e para denunciar as agressões do marido.

Ela encontrou acolhimento para sua dor e também para sua filha. “Vim para cá, eles me acolheram com a menina. Não tinha pra onde ir. Não tinha nem voz, não falava. Só chorava”, diz. Ela passou pelo processo de triagem da casa e foi atendida pela equipe de apoio psicossocial. Depois foi encaminhada para registrar o Boletim de Ocorrência na Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (DEAM).

Isabela fez isso em um único local, com rapidez. É justamente o conceito da Casa da Mulher Brasileira, projeto de atendimento especializado para mulheres em situação de violência que reúne diversos serviços em um só lugar. A coordenadora da CMB de Campo Grande, Eloísa Castro Berro, explica que as mulheres preferem procurar ajuda na Casa, pois sabem que serão bem atendidas.

“Temos 24 horas de atendimento psicossocial, DEAM e a Central de Transportes, que leva para serviços médicos, se for necessário. Há a briquedoteca para as crianças e alojamento de passagem caso a mulher esteja em risco", explica Eloísa. "A mulher chega e forma esse laço, se identifica com as pessoas porque todos estão voltados para isso. Quando ela sai daqui, mesmo no atendimento emergencial, ela se sente mais forte, mais protegida. É um olhar diferente, que acolhe”, complementa.

A Casa também oferece toda a assessoria jurídica para auxiliar as mulheres nos trâmites legais de separação, abertura de processo e pedido de guarda dos filhos, por exemplo. No mesmo prédio, há ainda a Promotoria, a Defensoria Pública e o Tribunal de Justiça, com a vara especial para violência contra mulher.

“Todos os serviços são integrados para que o processo da mulher seja encaminhado o mais rápido possível e que ela busque romper o mais rápido possível esse ciclo de violência”, conta Eloísa

Atendimento completo

Isabela denunciou o marido por violência e entrou com pedido de medida protetiva. Agora, batalha na Justiça pela guarda da criança. Também luta pela casa, escriturada em seu nome, mas dominada pelo marido, que passou um cadeado na porta e impede seu retorno.

Ela tem certeza que a ajuda jurídica recebida na CMB fez toda a diferença. “Sem o apoio daqui eu não tinha conseguido nada. Não estou trabalhando, não tenho como pagar advogado. O que eles fizeram aqui foi muito bom. Foi muito rápido, em cinco dias já estava tudo na mão do juiz. Até hoje a doutora da Defensoria corre atrás”.

Isso porque também há amparo para a mulher que vai denunciar o agressor no âmbito penal. A delegada titular da DEAM no local, Rosely Molina, entende que a mulher se sente mais a vontade de procurar a Casa da Mulher Brasileira para denunciar o agressor e cobrar uma punição porque sabe que ela vai ter um tratamento receptivo.

“A sensação de impotência, que é natural de uma vítima de violência, acaba se perdendo porque nós temos equipes preparadas para dar todo o atendimento que ela precisa. Aqui na delegacia, ao mesmo tempo que temos o carinho com a mulher, temos a celeridade para investigar as denúncias”, comenta.

Isabela é uma das 6,2 mil mulheres que já foram atendidas e tiveram suas vidas mudadas nos 10 primeiros meses do funcionamento das duas unidades da Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande e em Brasília.

“Eu tava presa. Hoje eu estou aliviada. Eu achava que ia ser diferente, mas está bom. Pela minha filha, eu sinto muito, porque ela gosta muito do pai. Mas eu não posso viver minha vida por causa dela com uma pessoa que não tem sentimento por ninguém”.

* O nome é fictício para preservar a identidade da mulher em situação de violência.

Fonte: Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (DEAM), coordenadora da Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande, Eloísa Castro Berro, Isabela* (cabeleireira de 45 anos que deu depoimento à reportagem)

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