Cidadania e Justiça

Dia Internacional da Mulher

Mulheres brasileiras tiveram de derrubar a exclusão para entrar na história do esporte

A luta das mulheres para se inserir no mundo esportivo faz parte de uma série de reivindicações por direitos que mudaram sociedades ao redor do mundo
publicado: 08/03/2016 14h00, última modificação: 23/12/2017 10h29
Mulheres brasileiras criaram referências próprias na história do esporte

Fã de Fofão desde criança, Macris passou a colega da levantadora na seleção de vôlei - Foto: Foto: Ponto Marketing Esportivo

A prática do desporto feminino era limitada pelo governo brasileiro no período do presidente Getúlio Vargas. Em plena ditadura do Estado Novo, o artigo 54 do Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, que vigorou até a década de 1970, limitava as modalidades liberadas para as mulheres.

"Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país."

Em 1965, na ditadura militar, o CND delimitou a linha que segregava o esporte feminino brasileiro: "Não é permitida [à mulher] a prática de lutas de qualquer natureza, do futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo e baseball", dizia a deliberação nº 7 do conselho.

A luta das mulheres para se inserir no mundo esportivo faz parte de uma série de reivindicações por direitos que mudaram sociedades ao redor do mundo no início do século 20. Em 1932, mesmo ano em que o voto feminino foi aprovado no Brasil, a nadadora Maria Lenk foi a primeira atleta a representar o País nos Jogos Olímpicos, em Los Angeles, Estados Unidos.

No Brasil, no entanto, a chegada da mulher às competições esportivas ocorreu mais lentamente que nos países da América do Norte e Europa, diz a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Katia Rubio. Ela aponta que a proibição da prática esportiva deixou graves consequências, que atrasaram a história olímpica do País, mesmo depois que deixou de vigorar o decreto da Era Vargas.

"Mais do que qualquer coisa, há uma assimilação que tem muito mais força do que a própria lei. Mesmo com a lei caindo em desuso, as famílias não permitiam que as meninas praticassem o futebol ou outras modalidades. Entendia-se que 'minha filha não é macho', então ela não vai praticar esporte, não vai praticar o futebol, porque isso é coisa pra menino", afirma Kátia.

As bases dessa exclusão vieram do próprio movimento olímpico, lembra a pesquisadora, e os cartolas do esporte valeram-se de falsos argumentos médicos para justificar a segregação. Katia resgata uma fala do barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos, para exemplificar tal posicionamento. “Quando Coubertin, em pessoa, em 1896, justifica a exclusão das mulheres dos Jogos, dizendo que tinham nervos frágeis, ele não se refere ao aspecto corporal. O argumento foi que as mulheres são histéricas, não podem competir porque competição é coisa para macho, é coisa para quem dá conta do embate.”

A exclusão feminina ocorria inclusive das modalidades em que as mulheres eram mais bem-vistas, como a natação e o tênis. "As brasileiras participavam do esporte de forma bastante seletiva. As que tinham acesso aos clubes [da classe média e da aristocracia] praticavam esporte como se praticava na Europa. Temos, aí, um conjunto de mulheres na natação, no tênis, nos saltos ornamentais, que vão inclusive se destacar nos Jogos Olímpicos."

A pesquisadora da USP destaca que as mulheres vindas de camadas mais populares que conseguiram, de alguma forma, participar do esporte, competiram basicamente no atletismo.

Número 1 no tênis mundial

Quatro vezes número 1 do mundo, entre as décadas de 1950 e 1960, a paulista Maria Esther Bueno lembra que era difícil ter referências esportivas femininas na época em que se destacou no tênis. "Não tínhamos essas facilidades de mídia. Então, não teve inspiração nenhuma, a não ser eu gostar de fazer o que eu fazia", diz a tenista, que diz ter se espelhado nela mesma e contado com o apoio da família e de amigos.

Modelos

A levantadora Macrís Carneiro, do Brasília Vôlei, valoriza o caminho pavimentado pelas atletas das décadas anteriores, que enfrentaram machismo e dificuldades no esporte. “É admirável ver que hoje em dia as mulheres não fazem apenas o que era visto antigamente como função delas, mas que estão, cada vez mais, conquistando espaço e mostrando talento.”

No caso do vôlei, o caminho foi aberto por uma geração que enfrentou falta de apoio, de patrocínio e de resultados. Enquanto lutavam por um lugar ao sol, as atletas viram a seleção masculina conquistar a prata olímpica em 1984 e o ouro em 1992. A primeira medalha feminina veio em 1996: bronze, mas com brilho de ouro, trazida por um time em que estavam Márcia Fu, Ana Moser, Virna e Fofão.

Macrís cresceu admirando o estilo da levantadora Fofão. “Eu queria o autógrafo dela e consegui, quando ela jogava lá em São Caetano [SP]. Sempre a admirei pelo talento e pela simplicidade.” A relação de fã virou profissional quando as duas treinaram no mesmo time. “Ela [Fofão] é muito simples e acolhedora com todas. É firme nas atitudes mas consegue manter o carisma.”

Depois de duas medalhas de bronze (1996 e 2000), a de ouro veio em 2008. “O vôlei masculino tinha mais atenção, melhores salários, patrocinador, e a gente sabia que, enquanto não conquistasse alguma coisa, continuaria em segundo plano. Tivemos de lutar, mostrar capacidade, potencial”, recorda Fofão, já aposentada das quadras.

Fofão não tem dúvida de que as mulheres conseguiram quebrar os preconceitos relativos a seu desempenho. “A mulher conquistou espaço. Antes era muito desacreditada”, lembra a campeã olímpica.

Fonte: Portal Brasil, com informações da Agência Brasil

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