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Embrapa diz como fez agricultura do País crescer e ganhar aplauso da Economist

por Portal Brasil publicado: 01/09/2010 21h03 última modificação: 28/07/2014 09h28

Uma das publicações mais respeitadas do mundo, a revista britânica The Economist, especializada em economia, publicou nesta semana extensa reportagem sobre "o extraordinário crescimento da Agricultura no Brasil". Com o título O milagre do Cerrado, o artigo afirma que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é uma das principais razões para essa revolução no setor agrícola do País.
 

Sobre esse avanço, que contou com o indispensável apoio do Estado brasileiro, o Portal Brasil entrevistou, com exclusividade, o diretor-presidente da Embrapa, Pedro Arraes (veja abaixo).
 

Graças a inovações tecnológicas desenvolvidas pela Embrapa, que melhoraram a qualidade das sementes e dos produtos agropecuários, em menos de 30 anos, o Brasil deixou de ser um grande importador de alimentos e passou a ser um dos maiores celeiros do mundo. Entre os números apresentados pela matéria estão os que mostram que o País está hoje, entre os cinco maiores produtores de grãos do mundo, com um crescimento de 365% somente na última década.
 

Ainda neste período, o Brasil multiplicou por dez a sua produção de carne, ultrapassando a Austrália como maior produtor mundial. Tornou-se ainda o maior exportador do planeta de carne de frango, de açúcar e álcool de cana-de-açúcar (etanol). Cerca de 70% dessas culturas se encontram no Cerrado, região que até há pouco tempo era considerada inútil para a Agricultura, por causa da alta acidez de seu solo.
 

E as perspectivas para o futuro são animadoras, segundo a Organização das Nações Unidas para A Agricultura e Alimentação (FAO), pois revelam que o País utiliza apenas 40 milhões de hectares, mas tem potencial para 400 milhões de hectares.
 

Para Pedro Arraes,  apesar da The Economist ecoar ao mundo o grande sucesso agrícola do País, é preciso salientar dois pontos não abordados pela revista, mas que foram fundamentais para o salto na produção do campo: a importante contribuição de uma rede com mais de 17 instituições estaduais de pesquisa agropecuária – algumas até mais antigas que a Embrapa.
 

Em segundo lugar, o trabalho desenvolvido junto ao pequeno agricultor, na área da Agricultura familiar, responsável, por exemplo, pela produção de quase 100% dos produtos que integram a cesta básica brasileira.
 

Veja, a seguir, a íntegra da entrevista.
 

Portal Brasil - O senhor poderia fazer uma rápida análise sobre a matéria publicada pela revista The Economist desta semana?

 
Pedro Arraes - A matéria tem diversos aspectos interessantes, o fato de que a gente aumentou a produtividade usando menos área. Mostra a nossa competitividade, que a agricultura brasileira é pautada na ciências, na tecnologia mais avançada do mundo. Mostra um Brasil moderno. Mas destaco duas omissões, vamos dizer assim, fundamentais. A primeira delas é que a Embrapa coordena um sistema nacional de pesquisa em agropecuária, com várias instituições estaduais, inclusive algumas que têm o dobro ou quase o triplo da idade da Embrapa.
 
A Embrapa e suas 45 unidades tem obviamente um papel fundamental nesse avanço, mas ele se deveu também a essa grande rede, a qual ela coordena: as Organizações de Estaduais de Pesquisa Agropecuárias (Oepas), universidades, institutos de pesquisa de âmbito estadual e federal e ainda outras organizações direta ou indiretamente vinculadas às unidades de pesquisa agropecuária.
 
Então é um esforço conjunto dessas instituições públicas e também de associações de produtores, que há muito tempo tiveram uma interação imensa em toda essa questão de pesquisa.

A outra questão é que a Embrapa é uma empresa plural, como o Brasil é plural e como a agricultura brasileira é plural. A empresa foi fundada em 1973,  com o objetivo principal de atender à demanda do mercado interno. Naquela época havia filas para comprar feijão, arroz, nos supermercados. E a Embrapa foi um sucesso na questão de atendimento da demanda interna, inclusive com reflexos imensos no custo da cesta básica.

A cesta básica caiu drasticamente, o que favoreceu o governo inclusive nesse programas sociais hoje, como o próprio Bolsa Família. Porque a produção de alimentos aumentou tanto que teve possibilidade de se baixar o preço desses produtos fundamentais. Não só o arroz e o feijão, mas o frango, a carne e outros produtos de maneira geral.

Esses produtos são muito mais voltados para a agricultura familiar. O feijão, por exemplo, é muito pautado na Agricultura Familiar. Esse componente foi esquecido no artigo. E é um componente fundamental. E, talvez, isso seja a maior força que o Brasil tem, de ter uma Agricultura Familiar forte, que atende o mercado interno; e uma agricultura de maior porte, que atende o mercado externo. Essas duas coisas são complementares. Nos dá competitividade efetiva.

 
PB - Há um aumento de acesso do pequeno agricultor à tecnologia desenvolvida pela Embrapa hoje?

PA - É necessário que haja uma extensão rural forte, de qualidade e isto está se reerguendo no Brasil. Tanto houve um aumento que o único produto que nós importamos de fora é trigo. Somos praticamente autosuficientes em todos os outros produtos da nossa cesta básica. E tem muita pesquisa por trás disso e uma pesquisa voltada para o pequeno produtor, para a Agricultura Familiar.

O papel da Embrapa é fazer a tecnologia e muitas vezes essa tecnologia é feita de forma participativa com esses pequenos produtores, mas muitas vezes não. A Embrapa não é uma empresa de extensão rural, porque a pesquisa é concentrada. E como a pesquisa é concentra, ela é muito diferente da extensão rural que é capilar, por todos os territórios brasileiros, por todos os municípios.

Isso significa então que o fortalecimento da extensão rural e de outros agentes nessas pequenas associações de produtores, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e as Federações de Trabalhadores na Agricultura, são extremamente importantes.

Importante para que cada vez mais a gente possa fazer esse canal de ligação entre a geração tecnológica e a inserção dessa tecnologia lá onde ela deve ser inserida. E, por outro lado, o caminho inverso, de nos trazer para a Embrapa os problemas de pesquisa, que temos que pesquisar para solucionar, os problemas que os pequenos produtores estão tendo lá na ponta, na propriedade.
 

PB - E quais são as perspectivas de futuro da pesquisa agropecuária no Brasil?

PA - No Brasil hoje, temos em torno de 5,3 milhões de estabelecimentos rurais de todos os tamanhos. Desse total, temos em torno de 480 mil produtores, que representam 75% da renda bruta da Agricultura Nacional. Independentemente do tamanho, buscam a tecnologia na Embrapa ou onde quer que ela esteja, nos Estados Unidos, na França ou em outro lugar, porque eles sabem da importância da tecnologia para a competitividade deles.

Temos em torno de 900 mil produtores que correspondem de 15 a 18% da nossa renda bruta. Esses são produtores (de todos os tamanhos) onde a questão tecnológica seja, talvez, o maior gargalo.

Aí é onde a Embrapa pode fazer, nesses cinco próximos anos, uma grande diferença. Porque esses produtores podem passar ao primeiro grupo dos produtores. Se a metade desses produtores passarem ao primeiro grupo, a gente vai atingir o que a gente se propõe que é ser o maior produtor de alimentos agrícolas em 2025. Logicamente que esses produtores ainda precisam de políticas públicas, mas o maior problema deles é tecnológica.

E nós temos um último contingente, de 3,3 milhões de produtores, que são produtores que  representam de 5 a 8% da renda bruta da agricultura nacional. Esses produtores precisam fortemente de extensão rural, precisam fortemente de programas de governo, de motivação, de autoestima, de educação. Inclusive para que eles possam atingir um determinado nível de conhecimento para que possam absorver pequenas tecnologias simples.

A gente tem que atuar junto com outras políticas públicas, mas com certeza o gargalo tecnológico não é o maior problema nesse último grupo. Quem sabe a gente pudesse passar 30% dessa camada para o segundo grupo. Então, com isso, a gente ia aumentando a igualdade no campo.

A gente tem que fazer da tecnologia um instrumento para proporcionar renda para a os produtores e proporcionar igualdade no campo, esse é o papel da Embrapa.

Para ler a matéria da The Economist, clique aqui.


Fonte:
Portal Brasil



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