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Investimento e corte de juros podem conter dólar, sugere economista do Ipea

publicado: 08/10/2010 20h36 última modificação: 28/07/2014 09h29

O mundo vive em um momento econômico conturbado. Países desenvolvidos estão reduzindo artificialmente o valor de suas moedas para tornar seus produtos mais competitivos no mercado globalizado. Os produtos chineses, por exemplo, têm inundado os mercados mundiais exigindo malabarismo de indústrias locais para manter suas produções e, por conseqüência, seus postos de trabalho. Estados Unidos e União Européia fazem duras críticas ao modelo econômico seguido por Hu Jintao, presidente chinês, que se defende, alegando a defesa da própria estabilidade comercial interna do gigante asiático.

O crescente vigor econômico brasileiro e o fortalecimento das instituições democráticas, por um lado, e as altas taxas de juros ( uma das maiores do mundo) pagas aos investidores, tem atraído grande quantidade de dólares ao País.

Juros reais de 6% ao ano, acrescidas de taxas de apreciação do câmbio, fazem os investidores estrangeiros e nacionais ganharem duas vezes com a chamada especulação financeira. 

O incentivo a especulação é grande, mas isso é justamente o inverso do que o Brasil precisa, afirma o economista Salvador Werneck, coordenador do Grupo de Regimes Monetário e Cambial da Diretoria de Estudos Macroeconômicos (Dimac) do Ipea, ao Portal Brasil. Para ele, essa situação  é um ciclo vicioso da política macroeconômica brasileira que precisa acabar. 

O economista vê a necessidade de expandir os investimentos públicos, reduzir as taxas de juros e adotar medidas de proteção do câmbio para fazer face o Brasil decolar de vez.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:


Portal Brasil - O senhor acha que a saída para fazer face à grande entrada de dólares no Brasil é uma política fiscal mais agressiva?

Salvador Werneck - A política fiscalista acaba por favorecer a entrada de dólar, valorizando ainda mais o Real. O efeito é indesejado. Mas esse não é o único efeito colateral, na minha opinião. A gente ainda está no meio de um processo de recuperação do investimento e ainda não está na hora de apertar o freio. Pelo contrário, nós temos que ampliar os investimentos, em particular o investimento público. 

PB - Existe uma disputa internacional relativa às taxas de câmbio, o que está acontecendo e quais são os reflexos disso para o Brasil?

SW - Os americanos participam com grande parte da produção chinesa ao mesmo tempo em que a China inunda o EUA com seus produtos. O país asiático também tem adquirido, em larga escala ($ 1 trilhão), os títulos do governo americano. É uma relação de simbiose entre mundo financeiro e o produtivo, incorporada globalmente por essas duas superpotências. 

E isso acaba determinando a taxa de cambio do dólar com o resto das moedas, especialmente nos países periféricos, em desenvolvimento. No caso do Brasil, isso é reforçado pelo arranjo de política macroeconômica vigente desde 1999, baseado no tripé que tem na política monetária seu vértice mais importante. 

PB - E qual é o reflexo disso? 

SW - Uma valorização ainda maior da moeda brasileira em relação às outras, em relação ao dólar. O mundo em desenvolvimento com taxas de juros reais próximas do zero e o Brasil, com taxa de juros reais de 6% ao ano. 

Por isso, o Brasil é um lugar que vale à pena trazer seus recursos para aplicar,  independente de qualquer outra variável. Tem ainda uma taxa de câmbio extremamente apreciada, o que faz o investidor ganhar duas vezes. Isso é um incentivo para essa entrada de dólar. Mesmo os investidores nacionais se endividam lá fora para aplicar nos papéis da dívida do governo brasileiros. 

O incentivo é muito grande e vai justamente no sentido inverso ao que precisamos, que é a ampliação do investimento produtivo. Estamos num círculo vicioso de política macroeconômica. É preciso romper com isso. A primeira medida é dizer não ao ajuste fiscal. 

Precisamos, ao contrário, expandir o investimento publico, reduzir os juros e adotar medidas de proteção do câmbio, como foi corretamente feito pelo Ministério da Fazenda recentemente. 

PB - O senhor acredita que a compra de dólares para conter o câmbio é uma boa política econômica para o Brasil? Qual é o problema dessa medida? 

SW - O dólar é quase um ativo real na economia global e, como o ouro, serve como reserva de valor mundial. À medida que o dólar vai se aproximando de valores que são percebidos pelo público como um piso, a tendência é que a divisa comece a ser adquirida e que aumentem as aplicações em fundos regulados pelo dólar, eu acredito nisso. Acho que a tendência de apreciação aqui no Brasil não se aprofunde tão mais assim a ponto de virar abaixo de R$ 1,60. 

É um custo que é potencializado pelo arranjo de política macroeconômica. Na medida que você tem taxa de juros reais extremamente elevadas, quando você compra dólares e constitui suas reservas, é preciso emitir títulos para estabilizar os efeitos dessa compra. É isso que implica o custo fiscal: taxa de juros extremamente elevadas e retorno baixo dessas reservas. Esse é o custo fiscal que está implícito.

PB - A China tem uma reserva de mais de 1 trilhão de dólares, ela tem esse mesmo custo? 

SW - A política cambial chinesa é diferente. O Brasil está ainda com um déficit de transações corrente cada vez maior e a china não, ela é superavitária. As circunstâncias são diferentes. Faz parte de um modelo de desenvolvimento que a China segue, que é baseado fortemente nas exportações e tem como reflexo um acúmulo que justamente torna possível sustentar o câmbio desvalorizado que eles têm.

O operador no dia a dia está preocupado com as expectativas. Ter um colchão de segurança dessa magnitude (quase $ 300 bilhões) dá muita segurança. Acho que o estoque de reservas que o Brasil tem é suficiente para dar uma segurança, embora não tenha no horizonte nenhum indício de ataque a nossa moeda. 

PB - O senhor acredita numa nova ordem econômica mundial ou na retirada do dólar como divisa de referência internacional?

SW - A economia americana podem dar alguns tropeços, mas cair não vai. O dólar tende a ser ainda, na minha opinião, a médio e longo prazo, a grande moeda de referência internacional. 

Por outro lado, é evidente que o mundo está a espera de algum movimento por parte da autoridade monetária chinesa, no sentido de promover um ajuste na sua taxa de câmbio. Até mesmo porque uma hora vai chegar num limite a expansão da economia chinesa e eles podem ter inclusive problemas de excesso de oferta. 

PB - Quais são os reflexos da redução artificial de divisas a médio e longo prazo? 

SW - As economias começam a tomar iniciativas individuais na desvalorização cambial e isso acaba sendo um jogo de soma zero. Mais uma vez eu reconheço que o ministro tem razão quando afirma que a saída no médio prazo são as economias centrais recuperarem seus níveis de atividade interna. 

O Japão, a Coréia do Sul, Suécia, por exemplo, são economias avançadas que estão com problema em seus mercados internos, por isso, estão fazendo política de desvalorização cambial. Isso ainda é sintoma da crise econômica e serve para defender empregos e setores exportadores. O fato é que se todo mundo fizer, a soma é zero. Vai voltar tudo ao mesmo nível. 

O que tem que ser feito é que os governos dessas economias adotem estímulos para reativar suas economias do ponto de vista interno, aí eles vão estar defendendo seus empregos e ao mesmo tempo não vão.

 

Fonte:
Portal Brasil

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