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Economia e Emprego

Indústrias brasileiras fazem abate religioso de carnes para garantir mercados estrangeiros

por Portal Brasil publicado: 17/01/2011 16h07 última modificação: 28/07/2014 14h11

As agroindústrias brasileiras com foco no mercado consumidor estrangeiro estão se especializando em realizar o abate religioso, para conquistar povos nos quais a fé rege também os hábitos alimentares. Nas duas últimas culturas, explica o Ministério da Agricultura, as carnes bovina e de aves são permitidas, desde que o animais tenham sidos mortos sob as bênçãos de suas crenças. 

As exigências religiosas variam conforme o povo. Os hindus, por exemplo, não comem carne bovina, por considerarem a vaca um animal sagrado, enquanto os budistas também evitam carne mas costumam adotar o estilo vegetariano. Judeus e muçulmanos, por sua vez, não aceitam a ingestão de carne suína, já que para os padrões dessas religiões, o porco é um animal impuro. 

O incremento das exportações para o Oriente Médio, onde a maioria da população (90%) segue os preceitos do líder espiritual Maomé, despertou o interesse de frigoríficos e, por outro lado, ampliou a possibilidade de compra da população daqueles países e de outros que seguem as mesmas leis, a exemplo dos asiáticos Malásia e Indonésia. Carnes com abate diferenciado, conhecido como halal, ganham espaço nas linhas de produção de grandes empresas.

Exigências do abate

Na prática, o termo halal significa permitido para consumo, mas o conceito ultrapassa o simples consentimento, tratando de princípios que vão do respeito a todos os seres vivos até questões sanitárias. A preocupação com a higiene do alimento estende-se ao bem-estar do animal, no caso dessas proteínas. 

Para os islâmicos, o ritual de abate do boi ou do frango deve ser feito apenas pela degola, para garantir a morte instantânea do animal. No sistema tradicional de abate bovino, a insensibilização por meio de métodos que levam ao atordoamento deve ser feita antes da sangria. Todos os procedimentos com o abate devem ser realizados por um muçulmano praticante, em geral árabe, treinado especificamente para essa função.

O oficio do degolador é estritamente ligado às tradições religiosas e o abate, e envolve diversos ritos.  Um deles estabelece que, cada animal que passa pela mão desse profissional, seja oferecido a Alá antes de ser morto. Nesse momento, ele pronuncia, em árabe, a frase “em nome de Deus” e sacrifica o animal. 

Omar Chahine, supervisor islâmico do frigorífico Minerva, em Barretos (SP), explica que esse oferecimento ocorre na intenção de que o animal não sofra, e que o sacrifício seja apenas para o sustento de quem dele se alimenta. “É um agradecimento pelo alimento e mostra que o trabalho é voltado exclusivamente à alimentação humana, sem crueldade pela morte de outro ser vivo”, afirma.  

Sempre que possível, o animal deve estar posicionado na direção da cidade sagrada de Meca (Arábia Saudita), intensificando o caráter ritualístico do ato.

Mercado cresce 15% ao ano

O mercado halal em todo o mundo é estimado em mais de US$ 400 bilhões, com crescimento de 15% ao ano. Dados da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras) apontam que 33% da produção de frango do Brasil são destinadas ao mercado halal, tendo a Arábia Saudita como o principal comprador. Na carne bovina, o percentual chega a 40%, com destaque para o Egito.

No frigorífico Minerva, em Barretos, esse abate foi incorporado à rotina diária e é realizado em uma área específica. Bruno Cunha, diretor de exportações para o Oriente Médio do grupo, conta que a produção é de 15 mil toneladas por mês de carne bovina e a demanda só aumenta, desde 1993, quando foi iniciado o comércio com aquela região. O investimento nas relações com países muçulmanos é tão expressivo que o frigorífico mantém escritórios em diversas nações, como Líbano, Arábia Saudita e Argélia.


Abate para judeus

Em menor escala no Brasil, mas seguindo princípios semelhantes aos do halal, a certificação kosher (ou kasher) é feita especificamente para atender consumidores judeus. O abate de bois e aves é supervisionado por um rabino e, assim como na religião muçulmana, denota a conexão entre o homem e Deus por meio da alimentação.

De acordo com a doutrina judaica, os alimentos ingeridos são absorvidos por todo o corpo, afetando atributos da personalidade. Para os praticantes da religião, aves de rapina e suínos têm o poder de acentuar a agressividade e estão proibidos pela Torá, o livro sagrado dos judeus.

A degola também é a base do abate kosher, realizado com instrumento específico para o corte das artérias carótidas e veias jugulares. A saúde do corpo e da alma, tanto do animal, quanto de quem vai consumir a carne, é importante para um povo com mais de trinta séculos de tradições. “O sistema vem das origens do povo de Israel e visa a diminuir ao máximo o sofrimento do animal”, afirma.

Cohen conta ainda que a lei judaica proíbe o abate na presença de outros animais para evitar que presenciem a aflição da espécie. A ingestão do sangue também não é bem vista pela religião. Após a morte do animal, a carne é salgada com o propósito de absorver todo o líquido, conservá-la e protegê-la de micróbios.

Segundo Albert Cohen, a carne kosher de boi ou frango produzida no Brasil é embarcada basicamente para os israelenses. “Dependendo da época, há vários frigoríficos trabalhando para exportar a Israel”. Ele cita o caso de uma planta em José Bonifácio (SP), que abate, por mês, 10 mil bois destinados àquele mercado. Para atender a comunidade judaica brasileira, o volume é de dois mil animais mensais.


Fonte:
Ministério da Agricultura

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