Meio Ambiente

Inovação e reciclagem

Projeto promove uso da tecnologia para inclusão de catadores

Sistema em desenvolvimento irá mapear e registrar a coleta de resíduos recicláveis, com prioridade aos eletrônicos
publicado: 08/09/2014 18h20, última modificação: 23/12/2017 01h00

“É uma quebra de paradigma”. Assim o catador de lixo José Cardoso, integrante da rede colaborativa Pró-Recife e diretor da Central das Colaborativas Recicláveis de Pernambuco (Cecorpe), categoriza o programa Inovação e Sustentabilidade na Gestão de Resíduos Sólidos – iniciativa que tem a Fundação João Nabuco (Fundaj) como entidade parceira.

O hábito do consumismo nos leva ao descarte imediato e, muitas vezes, indevido. Contra essa perspectiva, o projeto desenvolvido pela Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia (CGEA) da Fundaj busca alternativas por meio da promoção de uma logística reversa na gestão de resíduos eletrônicos.

Há, literalmente, ouro nas nossas lixeiras. Segundo a Universidade Técnica de Hamburgo (TUHH), em uma tonelada de celulares velhos existem cerca de 300 gramas de ouro, enquanto na mesma massa de minério esse numero é aproximadamente 10 gramas. Esse tipo de conscientização é antiga na Europa, mas ainda é novidade no Brasil (a Política Nacional de Resíduos Sólidos brasileira data de 2010). É voltada para perpetuação dessa tecnologia social: que une ciência de alto impacto, a baixo custo, para populações de baixa renda.

Aplicativo em desenvolvimento

Em andamento desde o ano passado, a iniciativa conta com a parceria da UFPE, Cetene, IMT, além da própria Fundaj. Entre suas principais medidas está desenvolvimento de um software inteiramente livre, usado pelos catadores, que mapeie e registre, de forma inovadora, a coleta de resíduos recicláveis, com prioridade aos eletrônicos.

“Devido a sua periculosidade, estes resíduos devem ter um critério diferente dos outros”, explica uma das coordenadoras do projeto, e pesquisadora da Fundaj, Lúcia Helena Xavier.

O sistema criado, intitulado “Revisis”, se divide em duas etapas: no primeiro momento foram implantadas bases móveis, ou seja, os catadores utilizaram aparelhos celulares, compilando por meio de fotos os materiais descartados. O primeiro empecilho para este método seria a levantamento dos telefones:

 “A surpresa veio quando vimos que a cada coleta os catadores traziam 4 ou 5 celulares funcionando, alguns ainda com chip”, completa Lúcia.

O procedimento foi testado, com sucesso, duas vezes em campo, com os próprios catadores utilizando os aparelhos descartados. O protótipo foi apresentado na edição desse ano da Campus Party, o principal acontecimento tecnológico realizado anualmente no Brasil.

A segunda etapa do Revisis, que está sendo aplicada no momento, fomenta o fortalecimento do sistema. O objetivo é a criação de softwares de manuseio mais simples e a incrementação de uma base estacionária na central de coleta, onde seriam tiradas fotos para registro, gerando ainda um QR Code. As duas bases funcionariam de forma complementar, de modo que permitam uma maior rastreabilidade e inteligência na gestão de resíduos sólidos.

Essas intervenções convergem na promoção da inclusão social. “O cara esta lá, excluído da sociedade, está à margem da sociedade há anos e anos. E a gente consegue se apropriar de um projeto desses, se empoderar de uma tecnologia dessa e conseguir começar a operar, e isso é um avanço muito grande”, comenta o catador José Cardoso.

As ações não se limitam ao software. Ao todo já fora organizados 7 cursos de capacitação em gestão de resíduos eletrônicos, lançamento de um E-book, 2 trabalhos no Encontro Nacional de Conhecimento e Tecnologia, em Brasília, e no Congresso Mundial de Resíduos Sólidos, em São Paulo, além de outro na Enviroinfo, em Oldenburg, na Alemanha.

Publicação on-line

O E-book "Resíduos Eletroeletrônicos na Região Metropolitana do Recife  - guia prático para um Ambiente Sustentável" está disponível para download gratuito em PDF, ao final deste texto, e serve como referência para orientar o descarte correto do lixo eletrônico, evitando que o material tóxico (mercúrio, por exemplo) entre em contato com o meio ambiente.

As atividades do projeto estão longe de parar. Mantendo atitudes paralelas entre a promoção da acessibilidade do software e a participação em eventos ao redor do mundo, em outubro o projeto Invovação e Sustentabilidade vai até o MIT, em Boston.

Ao mesmo tempo em que voa longe, o planejamento não descarta a importância da relação com quem é afetado e participa direta e diariamente de todo esse processo: os catadores: “O pessoal conseguiu trazer com clareza essas informações muito complexas, tornar fácil, para que catadores como nós se apropriassem disso”, finaliza José.

Fonte:
Fundação Joaquim Nabuco 

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