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Educação

Ciência sem Fronteiras já beneficiou 17,5 mil negros com bolsas de estudo no exterior

#LugarDoNegro

Afrodescendentes representam 25% dos estudantes; cerca de 9 mil pessoas farão o intercâmbio nos próximos meses
por Portal Brasil publicado: 29/11/2015 04h06 última modificação: 30/11/2015 12h18

O Ciência sem Fronteiras (CsF) irá enviar 9.116 bolsistas para estudar no exterior nos próximos meses. Eles tiveram suas bolsas de doutorado e pós-doutorado aprovadas neste ano, como parte do investimento de R$ 1,746 bilhão previsto no orçamento federal de 2015 para o programa. O CsF vai atingir, assim, a meta de colocar em salas de aula mundo afora 101 mil estudantes brasileiros, como o Bruno de Oliveira, de 22 anos.

Estudante de Biologia na Universidade de Brasília (UnB), ele fez parte da graduação em Seul, na Coreia do Sul. “Assim que eu fiquei sabendo do programa, eu falei: ‘vou tentar’. Eu sempre tive vontade de ir para a Ásia, sempre admirei muito a cultura oriental em geral. E, desde que eu comecei a pesquisar (o país de interesse), a Coreia do Sul era o país ideal para eu ir. Acabou que foi muito bom. Não tinha opção melhor”, diz.

Bruno é um dos 17,5 mil negros atendidos pelo CsF desde que o programa foi lançado, em 2011. Embora o programa não tenha um sistema de cotas, o modelo de seleção criado para aumentar a presença dos afrodescendentes no ensino superior se reflete na quantidade de bolsas do programa, gerido pelos ministérios da Educação (MEC) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Os afrodescendentes responderam por 25,23% das vagas oferecidas pelo programa desde que a etnia foi incluída no formulário de inscrição do Ciência Sem Fronteira, em 2013. Ao todo, 69 mil beneficiados pelo programa responderam ao questionamento sobre cor. Ou seja, um a cada quatro desses bolsistas é negro.

No campus da Chung-Ang University, o cabelo encaracolado e a cor negra rendeu a Bruno o apelido de Obama. “Era bem engraçado ver, porque eu não sou parecido com ele (Obama), mas para os coreanos que nunca viram ao vivo (um negro) era isso", conta, reforçando que seu cabelo gerou frisson por onde passou. "Eles acham muito bonito, muitos lá fazem permanente para ficar com o cabelo encaracolado."

Bruno chegou à UnB por meio do sistema de cotas, que defende como modelo justo. “Eu acredito que o sistema de cotas é efetivo, que partiu de uma iniciativa válida. Os alunos cotistas não são desmerecedores”, afirma.

Morador do Guará, cidade-satélite próxima à Brasília, filho de uma professora do ensino primário e de um arquivista do serviço público federal, o estudante diz que o programa realizou um sonho que seria difícil de concretizar sozinho. "Meus pais não teriam condição de pagar, de me manter fora. O programa foi ideal."

Adaptação

O estudante do último ano de Biologia voltou da Coreia em agosto de 2014, após um ano no intercâmbio. Ele é um dos 66,5 mil bolsistas que retornaram trazendo na bagagem uma nova experiência. “O que eu mais me adaptei e trouxe de lá foi a questão da disciplina. Hoje eu me disciplino mais para ter os meus horários de estudo, para chegar nos compromissos no horário”, explica.

Bruno conta que precisou se adaptar para acompanhar os sul-coreanos porque se sentia “representando” o País e a UnB. “Eu não me permiti tirar notas baixas ou ser um aluno mediano. Eu estudei bastante para acompanhar os meus colegas coreanos”, afirma. “Aquela história de que os pais asiáticos querem que os filhos estudem bastante é real, é bastante pesado. Então, eu estudei bastante para acompanhar o nível do pessoal”, diz. 

O desafio maior foi o inglês. Bruno fez até o primeiro ano do Ensino Médio em colégio público, os dois últimos anos foram como bolsista na rede particular. E nunca frequentou cursinhos de inglês. “Eu nunca fiz nenhum curso de inglês. O meu inglês veio de escola. Tive de me virar para conseguir acompanhar toda a biologia em inglês. Hoje, eu demoro muito pouco tempo para ler em inglês. Eu leio tranquilamente”, comemora.

Futuro

Aproximadamente, 25,4 mil bolsistas do CsF estudam e moram fora do País neste momento.  As bolsas são administradas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Foram investidos, até agora, R$ 3,7 bilhões no Ciência sem Fronteiras, cuja meta de colocar 101 mil estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em sistemas educacionais competitivos do exterior está sendo cumprida. O investimento total no programa será superior a R$ 5,4 bilhões.

O investimento será importante para o futuro de Bruno, que pretende seguir carreira acadêmica. Ele ainda não definiu a área de atuação, mas a experiência em um estágio na área de neurociência do Korea Research Institute of Bioscience and Biotechnology (KRIBB) despertou interesse.

“A experiência acadêmica foi muito importante. Foi um pouco diferenciada do que eu teria aqui. Minha experiência de estágios também foi muito interessante, até porque no meio científico é bom a gente ter contato. Eu colaborei com os laboratórios lá e tive esse retorno de fazer amizades, de ter pessoas conhecidas no meio”, avalia.

Fonte: Capes, Ciência sem Fronteiras, CNPq, MEC, MCTI

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