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Crônicas de Nelson Rodrigues: Tristíssimo Brasil

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São 40 crônicas selecionadas em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. Os textos foram publicados no livro “A Pátria de Chuteiras”
por Portal Brasil publicado: 30/05/2014 17h31 última modificação: 30/07/2014 02h36
Divulgação/ME Livro Pátria de Chuteiras, lançado pelo Ministério de Esporte em 2003, reúne 40 crônicas de Nelson Rodrigues

Livro Pátria de Chuteiras, lançado pelo Ministério de Esporte em 2003, reúne 40 crônicas de Nelson Rodrigues

O Portal da Copa publica, até o mês de junho, às vésperas da Copa do Mundo, uma série de crônicas escritas por Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1970.

No dia 9 de dezembro de 2013, o Ministério do Esporte lançou, o livro “A Pátria de Chuteiras”, que reúne 40 crônicas selecionadas em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

Confira abaixo a trigésima oitava crônica da série: "Tristíssimo Brasil".

Tristíssimo Brasil1

"E, então, aconteceu o seguinte: — resolvi fazer a defesa do Brasil e do brasileiro. Mas não imaginei, Deus me livre, que estava cutucando, com a vara de cutucar, a ira da quase totalidade dos companheiros. E, de fato, é muito difícil elogiar o Brasil no Brasil, é muito difícil elogiar o brasileiro entre brasileiros."

Amigos, o sujeito que nunca viu a nossa resenha dominical, na TV-4, não sabe o que é o Brasil, nem imagina o que seja o brasileiro. Os nossos debates e conclusões são um dado fundamental para sociólogos, historiadores e políticos. Direi mesmo que se a mesa Facit (1) existisse no tempo de Euclides da Cunha, este a teria preferido a Canudos. Repito: — a nossa resenha ensina mais sobre o país do que os sertões, no princípio do século.

Ainda domingo, houve uma que devia figurar, imediatamente, na Bienal. Imaginem vocês que sustentamos, há muito tempo, a seguinte tese: — o europeu é viril, mas leal; ao passo que o brasileiro é bruto e desleal. Vejam vocês que bela imagem fazemos de nós mesmos. Pois bem. E, domingo, um dos nossos convidados pôs nas nuvens o futebol europeu, a educação europeia, a polidez europeia, a correção europeia.

»Confira a íntegra do livro

E, então, aconteceu o seguinte: — resolvi fazer a defesa do Brasil e do brasileiro. Mas não imaginei, Deus me livre, que estava cutucando, com a vara de cutucar, a ira da quase totalidade dos companheiros. E, de fato, é muito difícil elogiar o Brasil no Brasil, é muito difícil elogiar o brasileiro entre brasileiros.

Vencendo a minha timidez de subdesenvolvido, comecei a dizer o seguinte: — o craque brasileiro é muito mais doce, mais educado, mais cavalheiresco do que o europeu. E argumentei com o nosso comportamento exemplar nos três últimos Campeonatos Mundiais. Nas três oportunidades, o brasileiro foi inexcedível na sua conduta disciplinar. Ninguém se lembra de um foul desleal dos nossos. Em 58, contra a França, fomos garfados da maneira mais deslavada. Tivemos que fazer três gols para que um valesse.

O escrete patrício não se revoltou. Aceitamos tudo. A nossa paciência era humildade. Eu estava vendo a hora em que ia aparecer em cada ombro do escrete um passarinho. Em 62, a mesma coisa. O escrete evoluía em campo como um marquês de rancho, com peruca, sapatos de fivela e um manto azul com estrelas bordadas. Era pungente ver a doçura do nosso futebol, doçura que só o subdesenvolvimento explica. Note-se que, tanto em 58 como em 62, os nossos adversários andaram se comendo. O documentário alemão, de 58, apresenta cenas de uma selvajaria horripilante.

Fiz o elogio do Brasil e do brasileiro. Esperei que, na pior das hipóteses, os presentes implicassem em tão veemente apologia. Esperei que, no dia seguinte, saísse nos jornais, como na Assembleia Legislativa: “O orador foi muito cumprimentado.” Pelo contrário: — quase me comeram vivo. Lembro-me que um dos companheiros, com uma mordacidade crudelíssima, lembrou: — “Em 58, o Brasil deu um olé!”

Fiz um silêncio estarrecido. Primeiro, porque não me lembrava de nenhum olé. Segundo, porque nunca me constou que o olé fosse uma demonstração de bestialidade. Mas o colega insistia, de olho rútilo e lábio trêmulo: — déramos um olé na final de Suécia x Brasil. Confesso que não tive palavras. Sem entender mais nada, perguntava de mim para mim: — que espécie de prazer, que miserável volúpia, que satisfação demoníaca e suicida leva o brasileiro a cuspir na própria imagem como um Narciso às avessas? Por quê, meu Deus, por quê?

Volto ao que dizia no início desta crônica: — no Brasil, o sujeito não será um estadista completo se não acompanhar, domingo após domingo, a nossa resenha. Em cada parte, em cada piada, em cada opinião, o que se sente é o Brasil, esse ilustre e desventurado Brasil, tão pouco amado pelos brasileiros.

Jornal dos Sports, 18/10/1967

(1) Grande resenha Facit foi uma famosa mesa-redonda da TV Globo; era formada por Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha e outros grandes nomes. O programa discutia, principalmente, o desempenho dos times cariocas.

Fonte:
Portal da Copa

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