Esporte
Campeão em 1998 pela França, Thuram fala sobre racismo e futebol
Copa 2014
Nesta terça-feira (10), o ex-zagueiro da seleção da França, Lilian Thuram, esteve em Brasília. O campeão da Copa do Mundo de 1998 visitou a escola de idiomas Aliança Francesa para falar do seu livro “As Minhas Estrelas Negras – de Lucy a Barack Obama” (ainda sem versão brasileira). A obra apresenta homens e mulheres negros que tiveram papel importante na história.
Thuram está na capital federal para prestigiar um campeonato mundial de futebol entre escolas de língua francesa. O recordista de atuações pela França (142 jogos) treina os adolescentes e os ensina sobre racismo. “Durante séculos, nos foi explicado que as pessoas de cor branca eram superiores às de cor negra, e isso gerou o racismo”, explica o criador da Fundação Lilian Thuram, que desenvolve atividades de conscientização sobre o tema.
O craque não assistirá a Copa nos estádios: volta para a França no sábado (14). Mas está atento ao mundo do futebol. Thuram falou sobre o racismo no esporte e listou seus favoritos para a Copa: Espanha, Brasil e França. Ele torce pela reedição da final de 1998: o placar seria mais apertado que os 3 x 0 daquela edição, mas com um toque de crueldade. “Quero a França ganhe por 1 x 0 com um gol aos 48 minutos do segundo tempo”, brinca. Assista a um vídeo com entrevista exclusiva e confira os principais trechos da conversa com outros jornalistas.
Racismo
“Para falar do mecanismo do racismo no futebol, é necessário falar do mecanismo do racismo na própria sociedade. As sociedades, em geral, são construídas em hierarquias baseadas, por exemplo, na cor da pele. Durante séculos, nos foi explicado que as pessoas de cor branca eram superiores às de cor negra, e isso gerou o racismo. Por exemplo, para explicarmos o sexismo, é exatamente a mesma coisa. A hierarquia mais velha que existe na nossa sociedade é a hierarquia entre homens e mulheres. Durante séculos, nos foi explicado que os homens eram superiores às mulheres, e os homens acabaram por acreditar que isso era verdade. Por isso que, hoje em dia, é mais complicado para a nossa sociedade ser uma mulher ou ser alguém de cor de pele não branca.”
A banana de Daniel Alves
“Todo mundo viu a atitude do Daniel Alves [em jogo do Barcelona, o lateral da Seleção Brasileira comeu uma banana atirada em campo por um torcedor]. Foi um fenômeno e virou moda, pelo que se viu em todas as redes sociais. Mas acredito que o gesto dele não foi o mais importante: a arbitragem não fez nada, os jogadores do Barcelona não reagiram, os adversários também não. O fato de que ele comeu a banana mostra que não houve conversa, e isso, no final das contas, agradou todo mundo. Sempre há uma hipocrisia ao redor do racismo. Com frequência, as pessoas não querem reconhecer que ele existe. Quando o Daniel Alves come a banana e o jogo continua, a gente para de refletir. E, quando tem um acontecimento tão extremo durante um jogo, quem deve tomar a atitude é o juiz. As pessoas não querem desenvolver aquilo que é mais importante no ser humano: a autoestima. O que aconteceu com o Daniel Alves prejudica também as crianças.”
Livro
“Meu livro é uma reflexão sobre a sociedade em que a gente vive. Estamos condicionados a pensar o que a gente pensa, a ser o que a gente é. Muitas vezes não nos damos conta de que nossa própria cultura nos condiciona a sermos racistas, sexistas e homofóbicos. Quando eu era jogador de futebol e algumas crianças pediam pra eu assinar autógrafos eu sempre perguntava: “Qual a primeira vez que vocês ouviram falar sobre história das populações negras?”. A grande maioria respondia que tinha sido em aulas sobre o período da escravidão. No inconsciente coletivo, a história dos negros começa com a escravidão, Então é compreensível que isso leve a um certo sentimento de inferioridade, até inconsciente. Portanto, a ideia do livro é mostrar homens e mulheres negros que fizeram coisas extraordinárias, para as pessoas pensarem de forma diferente. E você só pode pensar de forma diferente se alguém te der informações pra pensar diferente. Eu apresento alguns personagens no livro.”
Ações antiracismo do governo brasileiro
“Todas as iniciativas (de combate ao racismo) são boas iniciativas. Mas não é de um dia para o outro que vamos resolver o problema, as coisas vão se aperfeiçoar com o tempo. Na Europa e na América do Sul, a gente vê que há de fato racismo no futebol. Uefa e Fifa também fazem um trabalho de sensibilização. Mas, quando eu era jovem, também assisti a atos como o de jogar banana. E estamos em 2014 e os esses gestos continuam. Isso quer dizer que o futebol não encontrou a resposta. E que (Fifa e Uefa) ainda irão mais além na estratégia contra o racismo.”
União pelo futebol
“O futebol é um momento de compartilhamento de emoções. Quando você vê crianças jogando, percebe a alegria delas. Quando adultos jogam, também vivem momentos de alegria. Não é por acaso que o futebol que o futebol é o mais popular do mundo, promove a união de pessoas que compartilham essa alegria. No futebol, você vai além das suas possibilidades, dá tudo o que tem dentro de si pra ir em frente. É uma metáfora da vida, porque no início de um jogo ninguém pode saber como será no fim.
“Joguei durante muito tempo, não é fácil fazer prognósticos. Tem times que são favoritos, mas não é porque você é favorito que vai ganhar. A Espanha é muito competente, pois tem um time formado por jogadores que acabaram de ganhar a Champions League pelo Real Madrid, por jogadores do Atlético de Madri, que jogaram a final desse torneio, e por jogadores do Barcelona. E, quando você olha as outras seleções, não encontra jogadores que ganharam tanta coisa. E a Espanha é a atual campeã do mundo, bicampeã da Europa. Depois tem o Brasil, que joga em casa. E outras seleções, como a França.”
Brasil e França
“A Seleção Brasileira tem jogadores muito bons e jogará em casa. Isso é sempre uma grande vantagem, vimos isso bem durante a Copa das Confederações. Espero que a Copa do Mundo seja muito boa para os brasileiros. A França tem também uma boa equipe. Acabou perdendo aquele que talvez seja seu melhor jogador, Franck Ribéry, mas eu penso que o fato de perdê-lo pode levar a uma coesão muito mais presente, e espero que isso traga algo de bom. A França pode ir bem longe na Copa, porque tem jogadores de boa qualidade.”
Final
“Espero que o Brasil consiga chegar muito longe, porque geralmente é o que se espera de um país que sedia a Copa do Mundo. Para a França, espero de coração que jogue a final contra Brasil e que ganhe por 1 x 0, com gol aos 48 minutos do segundo tempo (risos).”
Brasília
“Sinceramente, não tive tempo de ver muita coisa em Brasília. Só visitei o palácio presidencial (Palácio do Planalto), e foi tudo. Não consigo falar muito sobre a cidade. De carro eu visitei a região central, a praça [Praça dos Três Poderes]... é complicado falar sobre uma cidade da qual só visitei os arredores.”
Fonte:
Portal da Copa
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