Esporte
Treinamento em família forma campeão de marcha atlética
Atletismo
Casada com o treinador João Sena, a ex-atleta da marcha atlética Gianetti Sena é vencedora de oito campeonatos brasileiros consecutivos, de 1996 a 2003. Aos 49 anos e agora treinadora, ela observa os atletas do Caixa Caso Olímpico – Centro de Atletismo de Sobradinho (DF) na lateral da pista de atletismo.
Os atletas do projeto já conquistaram 24 títulos brasileiros e nove sul-americanos, e estiveram presentes em quatro Olimpíadas. “Não pinica, não pinica”, grita Gianetti para o principal destaque da equipe, o tricampeão brasileiro de marcha atlética nos 20 km, líder do ranking sul-americano e único representante da modalidade nos Jogos de Londres, em 2012. Com o aviso da mãe, Caio Sena corrige a passada.
“A gente tem as nossas linguagens para conversar com o atleta”, conta Gianetti. As competições de marcha atlética são disputadas em circuitos de 1 km a 2,5 km, nos quais os atletas dão voltas até completar a distância da prova. Os nove árbitros se dividem pelo circuito, mantendo uma distância de cerca de 250 m entre um e outro. “Como o árbitro está perto, a gente não pode dizer para o atleta que ele está flutuando (tirando os dois pés do chão ao mesmo tempo) ou bloqueando (flexionando a perna de apoio). Então nós criamos linguagens que só a gente entende. Toda prova a gente cria uma nova”, explica. Cada bloqueio ou flutuação é uma falta – e só são permitidas duas em uma prova de 20 km.
Atletismo no sangue
Filho de uma campeã de marcha atlética e de um treinador de atletismo, Caio Sena sempre soube marchar, mas preferia se dedicar ao futebol – o atleta chegou a jogar nas categorias de base do Brasiliense.
Quando tinha 16 anos, por insistência dos pais, mesmo sem treinar, Caio competiu pela primeira vez numa prova de 10 km, ficando em terceiro lugar na categoria Menor da Copa Brasil de Marcha Atlética. No dia seguinte, também nos 10 km, competindo numa categoria acima, conquistou a prata e a classificação para a Copa Pan-Americana de Marcha Atlética. “Lá, ele foi o melhor brasileiro, com o quinto lugar, e conseguiu índice para o Campeonato Mundial de Menores. E isso não foi nem um mês depois”, orgulha-se Gianetti.
Com os resultados, Caio passou a se dedicar apenas à marcha. “Eu vi que pra mim era fácil e então me apaixonei”, conta o atleta. “Eu sempre fui muito disciplinado, então a partir daí eu já mudei e me dediquei 100% ao atletismo.” Enquanto a mãe coordena a parte técnica dos marchadores do Caso, o pai cuida da parte física dos atletas de todas modalidades. “Meu pai pega muito mais no meu pé”, diz Caio. “Quando ele bota um negócio na cabeça, você está lascado”, brinca. “Minha mãe, como foi atleta, entende que, no treino, às vezes é melhor a qualidade do que a quantidade.”
Gianetti não apenas entende o filho – a treinadora sofre junto. “Quando o Caio vai competir, eu não como, não durmo na noite anterior, tenho taquicardia. Fico mal”, conta. O nervosismo varia conforme a colocação do atleta e as decisões dos juízes. “É angustiante porque você vê o quanto ele se esforça, o tanto que ele trabalha. Ele é guerreiro. Inclusive ele está machucado, mas continua treinando, porque tem competição daqui a uns dias”, diz. “Mãe é bicho besta, né? Não quer que o filho sofra, e essa é uma prova sofrida, muito desgastante, que não depende só dele.” A interpretação do juiz, lembra Gianetti, pode desclassificar o atleta em uma competição importante. “O juiz não pode usar recurso nenhum, não pode filmar, não pode tirar foto. Ele tem que olhar e dizer se está certo ou não. E a interpretação é subjetiva.”
Treino e ouro em Portugal
Hoje, aos 23 anos, Caio já participou de uma Olimpíada e dois mundiais. Em maio deste ano, em Taicang, na China, o atleta disputou sua terceira Copa do Mundo de Marcha Atlética, ficando em 16° com o tempo de 1h20’28’’ – o recorde brasileiro dos 20 km, de Sergio Gaudino, é 1h19’56’’. Entre março e abril, o marchador esteve com a mãe em Portugal para um camping de treinamento. De lá, voltou com a medalha de ouro da etapa portuguesa do Circuito Mundial de Marcha Atlética, disputada na cidade de Rio Maior.
As temporadas no exterior são voltadas para o aperfeiçoamento da técnica e condicionamento em altitude. Caio, entretanto, não abre mão de treinar em casa, ao lado dos amigos e junto dos "pais-treinadores". “Normalmente, você vai ficando mais velho e se distanciando dos pais. Pra mim, foi o contrário: fui ficando mais velho e ficamos mais próximos. Sofremos juntos, sorrimos juntos, viajamos. É fantástico ter essa oportunidade”, garante. “Eu sou um grande admirador deles. Hoje, se eu tivesse que mudar, sofreria muito, nem sei se teria uma carreira. A gente é um time: se tirar um, já era.”
E o futuro de Caio segue sendo planejado em conjunto com os pais. João Sena tem os olhos nos Jogos do Rio. “Nós estamos trabalhando junto com a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), Caixa e outros patrocinadores para que ele vá lá com competitividade para beliscar uma medalha”, diz. Gianetti sonha além. “Depois de 2016, Caio vai para a prova de 50 km. Pelo Sena, ele já estaria fazendo. Eu que segurei, porque grande distância assim desgasta muito”, conta. “Mas pode escrever: ele vai ser ainda melhor nos 50 km. Pra ele, quanto mais distância melhor. A primeira prova que ele fizer já vai ser o recorde brasileiro.”
Fonte:
Agência Caixa
Todo o conteúdo deste site está publicado sob a licença Creative Commons
CC BY ND 3.0 Brasil

















