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Flirts no footing da Avenida Central

A guerra passara, a Internacional ficara contida nas longínquas e geladas terras soviéticas. A burguesia balança suas pérolas, plumas e paetês no dancing do Palácio Guanabara à rua Paissandu
publicado: 09/02/2010 12h50 última modificação: 28/07/2014 11h29

A guerra passara, a Internacional ficara contida nas longínquas e geladas terras soviéticas. A burguesia balança suas pérolas, plumas e paetês no dancing do Palácio Guanabara à rua Paissandu, desfila sua toilette no footing da avenida Central ou da rua do Ouvidor e entrega-se aos flirts nos jardins alcoviteiros dos palacetes. Porém, ao fechar os olhos para o sono reparador, não está mais em nenhum desses lugares. Nos seus sonhos tudo se transfigura: o baile do Club dos Diários se transforma numa picante noite no cabaret do Chat Noir, o footing na Avenida Central vira flânerie no Boulevard Champs-Elysées e o tradicional cafezinho se transforma no five-o’clock tea. Paris/Rio, Rio/Paris?

As primeiras duas décadas do século XX foram o apogeu da belle époque carioca. Que espírito ela teria imprimido à vida urbana da capital do Brasil e porque não dizer às várias capitais que começavam a se urbanizar nesse país ainda tão rural? Que mistérios, que aromas, que ritmos ecoam dessa época tão... tão belle époque?

Para Benjamim Costallat, famoso cronista da época, o ritmo era o jazz, “o jazz não perdoa os ouvidos modernos e os martiriza até o amanhecer”. Aqui como em Paris, no dancing do Belas-Artes, no Moulin-Rouge da Praça Tiradentes ou no Moulin-Rouge ao pé da boêmia colina de Montmartre, insiste Costallat, o ritmo é o jazz. “E sempre o jazz, como um hospício imenso aos berros, o jazz, sempre o jazz, ainda o jazz, entre as mil luzes estonteantes dos restaurantes noturnos, tornitroa e explode, em homenagem infernal às sacudidelas histéricas e lúbricas do shimmy”.

No entanto, nem tudo é cosmopolitismo na capital da República. Enquanto uma cidade dourada se desfaz em festas, uma outra moureja de sol a sol. O Rio esconde duas cidades em suas entranhas. A burguesa, da rua do Ouvidor, que Machado de Assis apelidara de “via dolorosa dos maridos pobres”, com suas lojas caras, de inspiração francesa como a Notre Dame, a Casa Clark e a Torre Eiffel. A cidade das casas de chá, confeitarias e cafés, como o Paris, a Deroche, o Provence, a Colombo e a Menères. A cidade dos clubs, cassinos, teatros e temporadas líricas, momento da parada das elegantes, vestidas com tecidos como surá, faille, chamalote, tafetá, e dos elegantes de cartola, polainas e bengala, que fumam em smoking rooms, aplaudem nos teatros ou pontuam nas mesas de poker. Rio de Janeiro dos palácios e palacetes. Da garçonière e da maisonnette.

Mas essa cidade disputava febrilmente a visibilidade com outra cidade: a dos trabalhadores de pés descalços, dos quiosques lamacentos no cais do porto, dos muquifos, dos mafuás, das feiras livres, dos zungus, estalagens e casas de cômodo. Rio de Janeiro das favelas e dos cortiços. Do samba e do jogo do bicho. Do malandro e da navalha. Dos analfabetos e da cusparada no chão. A cidade legal põe, a cidade ilegal dispõe.

Esse século XX que começa tão doce e ardente para uns poucos, é acre e frio para a grande maioria. Na percepção do grande poeta da época, Olavo Bilac, a vida moderna chegara, acelerando o tempo e impondo um novo ritmo à capital do país. Segundo Bilac, “a atividade humana aumenta numa progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e executar, em um minuto, o que seus avós executavam em uma hora. A vida é moderna, é feita de relâmpagos no cérebro e de rufos de febre no sangue”. O Rio de Janeiro civilizava-se, vaticinou o colunista Figueiredo Pimentel, criador da crônica social no Rio e que se tornou o eixo de toda a vida burguesa da capital, e, por isso mesmo, reclamava da remodelação de tudo, do espaço urbano, das maneiras, dos hábitos, dos comportamentos, da maneira de trajar, da maneira mesma de se ver e encarar o mundo. Tudo isso pautado por um cosmopolitismo agressivo, fortemente identificado com a vida parisiense. O passaporte para a entrada no mundo moderno, recamado de ouros e finesses de uma burguesia inebriada por Paris, que ficará conhecido como belle époque, era a condenação à sociedade brasileira tradicional e à sua mesmice, expressa no personagem de Monteiro Lobato, Jeca Tatu.

Foi essa remodelação, que se generalizou por todos os aspectos da vida do carioca, segundo outro badalado cronista social da época, e não o grito do Ipiranga, que marcaria a nossa definitiva redenção da situação colonial. Talvez não se possa falar em belle époque como um movimento, pois não havia consciência de que se vivia uma belle époque, mas certamente podemos pensá-la como o espírito de uma época. Uma época de renovações que se impuseram graças ao refreamento da revolução pensada pelos republicanos mais radicais, como os jacobinos, e a manutenção no poder das elites agrárias e seus aliados. Fazendo eco à estabilização da ordem pública e ao desafogo sentido na vida de sociedade, o editor de um semanário da moda comentou:

Temos ordem no progresso e as ordens prosperam. Dissiparam-se os fantasmas que assustavam a burguesia. Ninguém está mais preocupado com atentados [...]. Já não se comenta apaixonadamente o habeas corpus, seja em atenção ao competente corpo legislativo – ou a outros de cobiçadas atrizes, verdadeiros corpos de delitos ou de delícias [...].

A belle époque foi, pois, o jogo social de uma elite, expresso na sua sociabilidade que, presa de seu conservadorismo político, apostou todas as suas fichas numa “poética dos clubes e dos salões”. Segundo o historiador norte-americano Jeffrey Needell no seu livro Belle époque tropical, “de modo geral, essas instituições contribuíram para facilitar o convívio social entre os poderosos e suas famílias. E, em conseqüência, as amizades, os namoros e as apresentações pessoais e contatos que tornavam a solidariedade de classe e a administração das relações pessoais em atividades calorosas, e certamente eficientes, foi o que caracterizou a elite da belle époque carioca. O Cassino, o Club dos Diários, o Jockey e o Lírico eram elementos tradicionais de apenas uma das estruturas importantes e influentes nas quais se definiam as circunstâncias do poder”.

O haute monde da belle époque vivia uma existência de luxo e requinte que se baseava, preponderantemente, em modelos culturais estrangeiros. À frente das transformações e inovações urbanas da capital, essa elite quis fazer do Rio de Janeiro uma Paris tropical. Nascidos Joões, Josés e Marias sonhavam ser Jeans, Josephs e Mariannes. Dormiam sob estrelas tropicais e sonhavam acordar com o sol por trás da colina de Montmartre.

Nesse sentido, clubes e salões, muito mais que a rua – deixada à plebe ignara e inculta – se tornam lugares estratégicos a partir dos quais o “laboratório” da belle époque produzia sua química. E o que resultava dessas misturas? Criaturas, personagens quase teatrais, ansiosos para encenar sua performance no novo décor de uma cidade que se transformava e acenava, para alguns poucos, com uma vida renovada, forjada no luxo e no gozo. Assim, como o fora na corte francesa dos séculos XVII e XVIII, viver no luxo e no gozo, mais que um prazer, era uma espécie de obrigação que servia à estruturação das relações desse grupo e, em conseqüência, à hierarquia social.

Figueiredo Pimentel, verdadeiro ditador de comportamentos do período, exprimiu com precisão o que era viver no luxo e no gozo, ensinando como transformar o cotidiano medíocre de uma elite tropical num mundo pleno de requintes, atrativos e emoções. Escutemos uma de suas lições:

O que torna uma recepção, um jantar ou uma soirée elegante, não é o excesso de luxo, de riqueza ou de convivas. A elegância de qualquer festa ou reunião reside no modo de conviver, nos gestos, nas atitudes, na graça, no espírito, na elevação das conversações. Nunca é elegante falar dos outros e muito menos de si. Os assuntos para conversações de momento num salão, num restaurante chic ou num teatro, devem ser temas gerais. Deve-se falar numa soirée, sobre música, sobre poesia, sobre literatura, escolhendo o assunto conforme o interlocutor.

Era pelas relações sociais que o haute monde da belle époque dramatizava o seu estar no mundo e que se manifestava no seu mundanismo. O mundanismo se transformou numa verdadeira maneira de ser. Como lembra o escritor Gilberto Amado:

Mundanismo e esteticismo comandavam, sob o signo da Futilidade, não só o movimento social como o literário, também. E ainda o político. Ser mundano constituía título, razão de prestígio [...] Esteticismo e Mundanismo eram as duas rodas da carruagem bizantina em que se exibiam no nosso circo de Constantino os flácidos atletas da frivolidade.
João do Rio, o inspirado cronista da cidade, o mundano dos mundanos, no conto “Laurinda Belfort”, exprimiu com precisão o cerne desse espírito, ao mostrar que sua personagem, casada, arranja um amante por pura mundanice: “Ainda não tinha nenhuma [paixão fora do casamento]. Mas viria a ter. Seria a última etapa de seu mundanismo”. E, após emprestar um amante para sua personagem, João do Rio, conclui:

Fora levada àquilo (cultivar um amante), por mundanice, por cabriolice d’alma[...]. De ver as outras damas amadas por homens discretos e bem-vestidos, achara aquilo smart e comprometedor, com um leve tom de crime consentido. Ir assim, no seu carro, no carro do seu marido, entregar-se à paixão do outro, do cavalheiro elegante, parecia-lhe uma nota essencial da moda, lembrava-lhe logo os romances de Paris [...].

Afrânio Peixoto, político e historiador literário, vai ainda mais longe na sua definição de mundanismo, sugerindo que ele penetrava em todas as esferas da vida, inclusive nas artes. Segundo este autor, a literatura não era mais do que “o sorriso da sociedade”. Associando mundanidade com frivolidade, Afrânio Peixoto revelou o verdadeiro espírito da época: fantasia, narcisismo, elitismo.

Assim como na corte francesa dos séculos XVII e XVIII, viver no luxo e no gozo, mais que um prazer, era uma espécie de obrigação que servia a estruturar a hierarquia social.

Robert Moses Pechman é pós-doutor pela École des Hautes Etudes en Science Sociale de Paris, professor do IPPUR/UFRJ e autor de Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista (Casa da Palavra, 2002). Walcler de Lima Júnior é jornalista, mestre em planejamento urbano e doutorando no IPPUR/UFRJ, especialista na área de cultura e cidade.

(RHBN. Nº 5. Novembro 2005. PP. 34-37)

Revista de História da Biblioteca Nacional

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