Você está aqui: Página Inicial > Governo > 2014 > 12 > "A gente só cura as nossas feridas quando as enfrentamos", Ivo Herzog

Governo

"A gente só cura as nossas feridas quando as enfrentamos", Ivo Herzog

Comissão da Verdade

Após a cerimônia de entrega do relatório final, o filho de Vladimir Herzog, disse que o estado brasileiro passa a limpo a sua história
por Portal Brasil publicado: 11/12/2014 19h05 última modificação: 11/12/2014 19h05

Após a cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, disse que que esse momento é importante para ele e sua família, mas que é fundamental também para aqueles que não sofreram as graves violações dos direitos humanos ocorridas durante a ditadura. “A gente só cura as nossas feridas quando nós as enfrentamos”, afirmou

“No dia de hoje acho que é o resultado – principalmente para mim que eu sou familiar de uma vítima –, o fim de um ciclo de décadas de luta para que o estado brasileiro passe a limpo a nossa história. Mas passe a limpo não somente para nós familiares, que passe a limpo e torne público essa história para aqueles que não viveram”, relatou. 

Pedro Dallari, presidente da Comissão, explicou que as graves violações dos direitos humanos não começaram com a CNV e não vão acabar com ela.

A Comissão sistematizou toda a informação disponível colhida ao longo de várias décadas e acrescentou informações a partir de pesquisa realizada durante dois anos e sete meses.

De acordo com ele, ao permitir que a sociedade brasileira conheça melhor seu passado, o relatório entregue contribui também para o futuro.

“Este momento é um marco. [A verdade] permite o conhecimento, a verdade, ao se apurar os fatos todos, permite que a sociedade conheça a si própria, conheça ao Estado. E quem se conhece melhor é capaz de planejar e ter um futuro melhor”, analisou o presidente da Comissão.

Dallari esclareceu que o documento também oferece uma base para continuidade das investigações, em curso pelas comissões da verdade estaduais, municipais e setoriais e pelas instituições universitárias. “A investigação segue, mas agora em condições muito mais vantajosas”, disse. 

Rosa Cardoso, um dos membros da CNV, também falou sobre a relevância da entrega do relatório para a história do País. “Certamente é importante porque mostra como a história evolui. Nós passamos de um processo de barbárie para um processo de civilização – porque democracia é civilização”, disse.

Ela completou reafirmando o papel que o registro da verdade exerce para que haja justiça. “A questão é verdade mais justiça, não é verdade ou justiça, é verdade mais justiça. Então eu acho que vai haver depois desse processo por verdade, com as informações que nós trazemos, uma ampliação dessa luta pela judicialização”, afirmou. 

Leia abaixo a entrevista completa com Ivo Herzog:

Qual é a importância pessoal e para a sociedade brasileira deste dia, da divulgação do relatório da CNV?

No dia de hoje acho que é o resultado – principalmente para mim que sou familiar de uma vítima – o fim de um ciclo de décadas de luta para que o estado brasileiro passe a limpo a nossa história. Mas passe a limpo não somente para nós familiares, que passe a limpo e torne público essa história para aqueles que não viveram. Porque na realidade, nós, que vivemos, nós não vamos deixar que essas coisas… a gente não vai aceitar, à nossa volta, que essas coisas se repitam.

É importante também para pessoas que desconhecem as violações dos direitos humanos durante a ditadura?

Aquelas pessoas que não viveram, que não conheceram esses fatos tão trágicos, pelo desconhecimento estão sujeitas a que esses fatos voltem a acontecer e essas pessoas não tenham entendimento, consciência disso. Como alguns movimentos que nós temos visto pedindo volta da ditadura, essa coisa toda. Então, esse trabalho da Comissão Nacional da Verdade, sob a liderança da presidente Dilma, tem um valor… a palavra “inestimável” ainda é pouco para tentar traduzir qual é o valor. Porque é a maneira que a gente tem de formar uma sociedade consciente de qual é a nossa história. Uma história que teve tragédias, mas é uma história nossa, uma história que todos nós devemos ter orgulho. E todo nós, a partir desse orgulho, a partir desse orgulho de ser brasileiro, estamos sempre atentos para que os horrores não voltem a acontecer. 

Quais são os benefícios de se revelar a verdade?

Eu acho que ela traz respeito fundamentalmente. Eu vou citar um exemplo para ilustrar isso daí, que se tornou bastante emblemático, que também tem o papel da CNV. Até recentemente, até o ano passado, na nossa família tinha um atestado de óbito referente ao meu pai, mentiroso, que falava que ele havia se suicidado. É um documento que um familiar de um morto tem que ter até para resolver questões do dia a dia. Um documento que agride, um documento que tortura a família. Que diz que o seu ente era um covarde que tirou sua própria vida. Na hora que veio um atestado novo, retificado, a partir de um processo iniciado pela Comissão e que mostra que o meu pai foi morto vítima de maus tratos, tira um peso no nosso ombro, traz alívio. 

Buscar a verdade é revanchismo?

Não é revanche. O que está se buscando é verdade no seu sentido puro. A verdade é simplesmente para nós entendermos o que aconteceu, para criarmos mecanismos para que essas coisas não voltem acontecer. E quando eu digo que busco justiça, justiça não é revanche.

Quando nós falamos que a gente busca a justiça através do Estado, é porque a gente quer essa justiça serena, a gente vive em um país de direito, com três poderes, funcionam, como a presidente disse, há três décadas já, e nós queremos, nós acreditamos nesse sistema.

Que efeito a divulgação da verdade tem para você e sua família?

Eu tenho um filho de 17 anos. Está prestando vestibular agora, fez o Enem. Eu tenho muito orgulho de poder contar tudo que eu fiz na minha vida e acho que ele tem muito orgulho do pai que ele tem, ele tem muito orgulho da avó que ele tem. Ele tem muito orgulho do avô que ele nunca conheceu. Isso é fundamental, porque somos nós que damos o exemplo para os nossos filhos, eu tenho certeza que eu vou ter orgulho dele. 

A gente só cura as nossas feridas quando nós as enfrentamos.

Fonte:
Blog do Planalto 

Todo o conteúdo deste site está publicado sob a licença Creative Commons CC BY ND 3.0 Brasil CC BY ND 3.0 Brasil

banner_servico.jpg

Últimos vídeos

Michel Temez faz a primeira reunião ministerial
Michel Temer se reuniu com novos ministros no Palácio do Planalto. Eles discutiram medidas que serão anunciadas nos próximos dias
Dilma destaca importância da agricultura para ‪‎o País
No lançamento do Plano Safra 2016/2017, a presidenta fez um balanço do apoio do governo federal ao setor
No Dia do Trabalho, Dilma anuncia reajuste noBolsa Família
Haverá reajuste médio de 9% no valor do programa e reajuste de 5% na tabela do Imposto de Renda
Michel Temer se reuniu com novos ministros no Palácio do Planalto. Eles discutiram medidas que serão anunciadas nos próximos dias
Michel Temez faz a primeira reunião ministerial
No lançamento do Plano Safra 2016/2017, a presidenta fez um balanço do apoio do governo federal ao setor
Dilma destaca importância da agricultura para ‪‎o País
Haverá reajuste médio de 9% no valor do programa e reajuste de 5% na tabela do Imposto de Renda
No Dia do Trabalho, Dilma anuncia reajuste noBolsa Família

Últimas imagens

Somente em Salvador serão entregues 2.800 unidades
Somente em Salvador serão entregues 2.800 unidades
Foto: Isac Nóbrega/PR
Em vários momentos, integrantes dos movimentos sociais que assistiam à cerimônia gritaram “Não vai ter golpe”
Em vários momentos, integrantes dos movimentos sociais que assistiam à cerimônia gritaram “Não vai ter golpe”
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Ministro da Educação disse que reconhecer o resultado da eleição é fundamental para a democracia
Ministro da Educação disse que reconhecer o resultado da eleição é fundamental para a democracia
Divulgação/EBC
Presidenta Dilma cumprimenta Mauro Lopes em cerimônia de transmissão de cargo na manhã desta quinta-feira (17)
Presidenta Dilma cumprimenta Mauro Lopes em cerimônia de transmissão de cargo na manhã desta quinta-feira (17)
Foto: Elio Sales/SAC

Governo digital