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Carranqueiros atraem turistas e mantêm viva tradição em Pirapora (MG)

Artesanato

Às margens do São Francisco, Associação dos Carranqueiros mantém esperança de aumentar vendas e cultura dos artefatos
por Portal Brasil publicado: 21/07/2014 15h47 última modificação: 21/07/2014 15h47
Codevasf/ Divulgação Carrancas atraem o Caboclo D’água e espantam maus espíritos durante viagens nas embarcações do Velho Chico

Carrancas atraem o Caboclo D’água e espantam maus espíritos durante viagens nas embarcações do Velho Chico

Entre inúmeros e curiosos olhares, o primeiro é meio assustador. Mas, com o tempo, logo dá pra perceber os ricos detalhes dos traços das tradicionais carrancas de Pirapora, norte de Minas Gerais. Pintura forte, umas com brilho, outras mais foscas e vigorosas, esses objetos atraem turistas de todo o Brasil.

Na cidade ribeirinha, às margens do rio São Francisco, a Associação dos Carranqueiros mantém viva a esperança de aumentar as vendas e a própria cultura das carrancas: segundo reza a lenda, elas atraem o Caboclo D’água e espantam os maus espíritos durante as viagens nas embarcações do Velho Chico.

Desde a década de 1970, Antônio Ramos produz, com as mãos ainda firmes, carrancas de vários modelos, tamanhos e cores. Ele conta, com entusiasmo e emoção, a satisfação que tem de dedicar, em média, quatro dias para confeccionar o objeto. “Dá para vender por uns duzentos reais, dependendo do tamanho e da madeira. De tudo o que vendemos, o dinheiro fica todo para o artesão. Antes, pagávamos uma comissão para a associação, mas hoje isso mudou”, conta.

O prédio da associação foi doado pela prefeitura em 1982. Hoje, todos os dias, os artesãos trabalham desenhando, cortando, decorando e finalizando as carrancas, e também imagens de Jesus Cristo e de santos (São José, São Francisco, São Judas, Nossa Senhora de Fátima), réplicas do Vapor Benjamim Guimarães, barcos, terços, cruz e outras peças. Na sala de exposições, a fotografia estampada de Dedeco Boaventura Leite chama atenção.

Segundo os trabalhadores, ele foi responsável, entre 1975 e 1982, por sustentar o artesanato em Pirapora, apoiando ativamente todas as famílias que, à época, iniciaram o trabalho na cidade. “Quando passávamos por dificuldades, era Dedeco que nos ajudava com alimentação, pagando contas de água e luz. Ele é muito importante para todos nós”, confirma Antônio, que aprendeu o artesanato ainda pequeno, quando chegava da escola e ficava “curiando” as senhoras trabalhar. “Hoje, com as vendas, dá pra levar uma vida boa. Mas já vendemos mais, antigamente era melhor”, afirma.

“Em 1982, vendi uma carranca por encomenda, que precisei da ajuda de mais três amigos. Juntos, gastamos 25 dias pra fazer. Ela tinha 1,70 metro de altura”, relata.

A principal matéria-prima das carrancas é comprada dos fazendeiros. No entanto, a maior parte da madeira e da lenha os artesãos recebem de doações. “A Vale do Rio Doce recentemente fez uma doação boa pra gente. Toda essa madeira que está aqui foi ela que nos deu. Ano passado, com a construção das casas populares, as empreiteiras também doaram pra gente”, ressalta o artesão que fez questão de contar várias histórias do passado.

As duas filhas, no entanto, não querem aprender a arte do pai. “Até que não fico triste. Elas estudaram e é isso que importa. Hoje o tempo é outro. A história é outra. Meu passado com as carrancas e com o meu trabalho estará sempre guardado comigo e com minha família. Graças a Deus consegui conquistar o orgulho delas com o meu esforço, com o meu suor derramado por cada peça que construo diariamente aqui em Pirapora”, afirmou.

Entre as dezenas de carrancas expostas, seu Antônio faz questão de contar a que lhe deu mais trabalho, aquela para que dedicou mais tempo e força. Ela custa R$ 500,00 e tem 1,20 metro de altura. “Logo, logo não estará mais aqui, algum turista vai comprar para expor em casa, no ambiente de trabalho ou algo assim. É bom saber que o povo gosta de ter uma carranca enfeitando o lar. Essa cultura não pode acabar”. Ele também fabrica carrancas com três faces, que custam em média R$ 450,00. 

Fonte:
Companhia de Desenvolvimento dos Vales do Parnaíba e do São Francisco

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