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Meio Ambiente

Estímulo natatório aumenta peso do peixe, revela estudo

Pesquisa

Treinamento físico tornou o animal mais resistente ao estresse, que é um dos graves entraves à piscicultura
por Portal Brasil publicado: 29/10/2013 15h30 última modificação: 29/07/2014 09h25
Divulgação/Instituto de Pesca de SP Estudo está sendo feito com o matrinxã pelo INPA

Estudo está sendo feito com o matrinxã pelo INPA

A utilização de métodos alternativos de cultivo de matrinxã juvenil em água corrente intermitente (não contínuo) mostrou que o peixe que recebe estímulo natatório tem um ganho de peso de 30% a mais comparado com o matrinxã sedentário, tendo inclusive o melhor aproveitamento da ração. Esse é um dos resultados do artigo “Efeito da quantidade de proteína na dieta e treinamento físico sobre parâmetros fisiológicos e zootécnicos de matrinchã (Brycon amazonicus)”, publicado na Acta Amazônica, revista científica multidisciplinar do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/ MCTI).

Assinado pelo estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (PPG-BADPI), do Inpa Márcio Ferreira e pelos pesquisadores Paulo Henrique Aride, Maria de Nazaré da Silva e Adalberto Val, o estudo também apontou que a aplicação simultânea do aumento da quantidade de proteína na dieta do matrinxã e o treinamento físico do peixe geram maiores acúmulos de gorduras no filé.

“Isso sugere uma avaliação do tipo de gordura acumulada, porque ainda não sabemos, por exemplo, se essa gordura é rica em ômega 3 ou não, e da aceitação dessa carne no mercado”, disse Ferreira.

Metodologia

Dois níveis diferentes de proteína na ração foram testados, uma com 36% e outra com 45%, a com maior percentual de proteína foi a que obteve os melhores resultados. Segundo Ferreira, apesar de ser mais cara, o custo compensa devido à diminuição do tempo de crescimento do peixe – no caso da pesquisa matrinxãs juvenis. Depois dessa fase, o peixe leva mais uns seis a oito meses até ir para o mercado consumidor.

O estudo identificou ainda que o matrinxã submetido ao treinamento físico ficou mais resistente ao estresse, que é um dos graves entraves para a piscicultura, além da disponibilidade de água e custo da ração. O estresse do matrinxã é entendido como um nome genérico para diversos fatores, como queda na concentração de oxigênio da água, extremos de temperaturas e substâncias tóxicas na água, que diminuem a taxa de crescimento ou até matam o peixe.

Nadar contra a correnteza

Para chegar a esses resultados, a pesquisa reproduziu em laboratório o método de cultivo em canal de igarapé, modo predominante na região norte do Amazonas, utilizando caixas d’água circular, onde foi gerada, a partir de bombas, uma correnteza de água fazendo com que os peixes fossem forçados a nadar contra ela, mas com interrupções periódicas.

Com isso, produziu-se um estresse natatório, no qual os peixes foram obrigados a vencer a corrente d’água. O modelo é diferente dos métodos tradicionais (canal de igarapés), onde os peixes são mantidos em água corrente de forma contínua, durante 24 horas. “No caso do matrinxã, o estresse natatório é um fator positivo quando aplicado da maneira correta, possibilitando o maior ganho de massa do peixe”, explicou Ferreira.

No experimento, os peixes foram obrigados a nadar durante um minuto de água corrente, com descanso de dez minutos durante 24h por dia, por um período de 30 dias. Já o grupo sedentário ficou em água parada.

O diferencial do estudo em relação ao modelo tradicional é a tentativa de fazer um método intermitente, onde o peixe não precise nadar o tempo inteiro e que ele use o estímulo natatório o mínimo possível, já que na própria natação o peixe gasta energia e acaba perdendo peso. “Então nós temos que encontrar é um equilíbrio entre o gasto calórico e o estímulo benéfico do exercício físico”, apontou Ferreira.

Um dos desafios do estudo agora é testar os resultados em escala real, já que em laboratório as condições são consideradas ideais, controladas. Ferreira lembra que nos métodos tradicionais, a água disponível entra e sai do tanque continuamente, e ela é utilizada simplesmente para renovação d’água e não para gerar a corrente de água. Os testes foram feitos no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM) do Inpa.

“O que propomos é que em vez dessa água entrar e sair continuamente no tanque, que ela seja represada e liberada uma ou algumas vezes durante o dia, gerando o estímulo necessário para o aumento de produtividade”, enfatizou Ferreira.

Para o pesquisador do Inpa, Alexandre Honczaryk, que trabalha com piscicultura, o estudo pode funcionar na prática, mas com matrinxã juvenil e para a produção de subsistência, porque na fase seguinte, a de engorda, é bem mais complicada. Nela, é exigido maior tempo de tanque ou de igarapé, de seis a oito meses, aumentando cada vez mais o volume de água e de ração (apesar do nível de proteína na ração chegar a cair até 28%).

“Mesmo em canal de igarapé, há uma vazão de água limitada e exatamente por isso o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) limitou o cultivo de matrinxã em igarapé a um número máximo de peixe por área e por igarapé, senão é feito um atrás do outro, e passa-se a ter problemas de poluição, de saúde”, pontuou Honczaryk.

Conforme a resolução Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Cemaam n 01.08/Ipaam), a criação em canais de igarapé é autorizada para microempreendimentos de aquicultura familiar, comunitária, de baixa renda, e subsistência, de caráter social e baixo impacto, desde que assegure a estabilidade de margens do igarapé, a regeneração e a manutenção da vegetação nativa.

Os empreendimentos também poderão ser licenciados em canais de igarapé com vazão mínima de 15 litros por segundo e biomassa final de 1.000 quilos em 100 metros cúbicos. Fora desses parâmetros são necessários estudos de impacto ambiental.

Saiba Mais

O estresse do peixe pode ser verificado por meio de análise hematológica (do sangue), observando alguns parâmetros que indicam se peixe está estressado ou não. Outra maneira é aplicar um teste natatório, porque além da natação ser um fator de estresse para o peixe, um teste a posteriori pode também indicar o vigor físico dele e um bom vigor físico é sinal de saúde.

Perspectivas

Segundo Márcio Ferreira, o grupo vai continuar desenvolvendo o trabalho de exercício com peixes em geral, inclusive com matrinxã. O objetivo é saber qual é o estímulo natatório necessário para conseguir maior vigor físico.

“Queremos saber qual é o mínimo necessário para conseguir esses mesmos benefícios, porque quanto menos a gente precisar desse estímulo, menos recursos (água, ração e energia elétrica a gente vai precisar”, revelou o doutorando.

No momento, Márcio estuda a adição de suplementos alimentares na ração dos peixes, entre eles o aminoácido arginina, que comprovadamente em mamíferos (cavalos, ratos e até humanos) aumenta a oxigenação dos músculos gerando um maior desempenho atlético. A questão agora é saber se isso pode funcionar em peixes.

Fique por dentro

De acordo com dados do Censo Aquícola do Brasil, divulgado pelo Ministério de Pesca e Aquicultura em setembro deste ano e usando dados de 2008, foram identificadas o País 753 unidades produtivas de matrinxã. Na região Sudeste foi encontrada a maior parcela dessas unidades produtivas (41%), seguida pela região Centro-Oeste (28%), Norte (22%), Sul (9%) e Nordeste (0,4%). Dentre os estados, São Paulo lidera o número de unidades produtivas, com 25% do total, seguido do Amazonas com 19%, Goiás com 17% e Minas Gerais com 12%.

Fonte:
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

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Assunto(s): Pesca, Meio ambiente

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