Governo

Tradição

Bandeira Nacional reflete a história brasileira

Idealizadores do símbolo criado após o fim da monarquia escolheram representar as conquistas, o momento histórico e os desafios por vir
publicado: 16/12/2014 17h47, última modificação: 23/12/2017 10h58
Bandeira Nacional reflete a história brasileira

Protótipo da Bandeira Nacional, pintado em 1889 por Décio Villares - Foto: Divulgação/Senado Federal

Em 19 de novembro de 1889, quatro dias após o fim da monarquia, o presidente Deodoro da Fonseca assinava um decreto com a descrição da sucessora da bandeira imperial. O modelo era praticamente idêntico ao atual. Em vez das 27 estrelas de hoje, havia 21, número correspondente à soma dos 20 estados então existentes mais a capital federal.

As estrelas, que fazem parte da esfera, representam a constelação Cruzeiro do Sul. Cada uma corresponde a um Estado brasileiro e, de acordo com a Lei nº 8.421, de 11 de maio de 1992, deve ser atualizada no caso de criação ou extinção de algum Estado. A única estrela acima na inscrição “Ordem e Progresso” é chamada Spica e representa o Estado do Pará.

Entretanto, o processo de mudança não chegou a agradar a todos na época. Em dezembro de 1890, um mês após a abertura do Congresso Constituinte, encarregado de aprovar a Constituição da República, o deputado Francisco Coelho Duarte Badaró (MG) subiu à tribuna para queixar-se:

"Na bandeira se encontra um atentado contra as nossas tradições. Criminosamente lançaram nela um dístico que não quadra com as nossas ideias, que pertence a uma seita absurda", afirmou.

Badaró se referia aos dizeres “Ordem e progresso”. Trata-se da máxima do positivismo, mistura francesa de religião com filosofia bastante em voga entre os militares que destronaram dom Pedro II. Para o deputado, era inadmissível a menção à “seita”:

"Essa provocação tem impedido que o povo brasileiro, desde as primeiras até as últimas camadas, corra a abraçar a bandeira", disse.

Lei e liberdade

Desde então, apareceram vários projetos de lei querendo redesenhar a bandeira, quase todos apagando a legenda. Argumentava-se até que os embaixadores passavam vergonha, pois eram insistentemente questionados se o positivismo havia virado a religião do País — com a República, o Estado tornou-se laico e o catolicismo perdeu o status oficial.

"Tão antinacional divisa impopulariza a República. É uma provocação aos cristãos, à quase unanimidade da população do Brasil",  criticou o senador Coelho Rodrigues (PI) em 1896, ao apresentar uma proposta que trocava “Ordem e progresso” por “Lei e liberdade”.

Nenhum projeto do tipo, porém, conseguiu prosperar.

Segundo o consultor legislativo do Senado Joanisval Gonçalves, especialista em relações exteriores, a bandeira só começaria a vencer as resistências em 1922, quando os festejos do centenário da Independência despertaram uma onda de patriotismo.

"A bandeira precisou de tanto tempo para ser aceita porque a própria República não era consenso. O regime foi implantado sem o respaldo da população. Ao longo das primeiras décadas, havia muita gente desejando a volta da monarquia", explica.

Santos Dumont, o criador do avião, pregava a restauração. Ele, que era próximo da família imperial, exilada na França, voava com uma flâmula verde e amarela atada a suas invenções.

Adaptação

O modelo atual é, na realidade, uma adaptação da bandeira do Império, que havia sido desenhada por dom Pedro I em 1822, logo depois da Independência. No lugar do círculo azul, repousava o brasão da monarquia.

O verde e o amarelo não foram uma escolha aleatória nem tinham o ingênuo objetivo de representar as matas e o ouro. O verde remete ao próprio dom Pedro I — é a cor da família Bragança, que reinava em Portugal. O amarelo, à sua primeira mulher, a austríaca Leopoldina. É a cor da dinastia Habsburgo, que governava a Áustria.

O losango, além disso, é a figura geométrica tradicionalmente feminina. De qualquer forma, o imperador não rechaçava a versão que enaltecia as riquezas naturais do País.

Dias atuais

Uma gigantesca bandeira nacional pende continuamente no mastro da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Feita de náilon paraquedas, ela tem 20 metros de comprimento e 14 metros de altura. São 280 metros quadrados. Desde 2000, uma empresa de Cascavel (PR) confecciona a bandeira, que é trocada todo mês. Diz Sérgio Tomasetto, proprietário da fábrica:

"Grande parte das bandeiras tem o preto e o vermelho, que indicam que o país enfrentou guerra. A nossa, não. O verde e o amarelo formam uma combinação singular, que torna a nossa bandeira bela, emocionante e inconfundível", analisa.

Desenhos originais são recuperados

Os rascunhos que deram origem à bandeira brasileira estavam perdidos, mas foram encontrados em outubro deste ano. Eles foram os primeiros esboços feitos pelo engenheiro Raimundo Teixeira Mendes em novembro de 1889, após a Proclamação da República.

 Em ambos os papéis se veem a esfera, as estrelas e os dizeres “Ordem e progresso”. O primeiro é um papel milimetrado, que permitiu a Teixeira Mendes posicionar e dimensionar cada estrela com precisão. O segundo é um papel vegetal, onde estão os traços definitivos.

Os desenhos estavam na centenária Igreja Positivista, no bairro da Glória, esquecidos dentro de uma caixa. Foram descobertos por acaso, quando se limpavam os armários do último presidente da igreja, que morreu em julho. Os papéis estão nas mãos de restauradores. Quando o trabalho terminar, serão expostos ao público.

O material estava na igreja porque o positivismo exercia forte influência sobre os intelectuais brasileiros do final do século 19. Criado pelo francês Auguste Comte, o positivismo faz uso da ciência para explicar o mundo. A visão era vanguardista para a época.

Foi o positivista Benjamin Constant, ministro da Guerra do novo regime, que aprovou o desenho de Teixeira Mendes, também positivista. Amor, ordem e progresso formavam o tripé da religião.

Os desenhos recém-descobertos serviram de base para uma pintura a óleo, também de 1889, do artista Décio Villares, outro seguidor da igreja. Foi o molde para que as costureiras confeccionassem as primeiras bandeiras.

A pintura ficou exposta na Igreja Positivista até 2010, quando foi roubada. Parte do telhado havia desabado, o que permitiu a entrada dos ladrões. A Polícia Federal e a Interpol foram acionadas, mas a obra até hoje não foi recuperada.

Fonte:

Agência Senado

error while rendering plone.belowcontentbody.relateditems