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Brasília completa 27 anos como Patrimônio da Humanidade

Projeto do urbanista Lucio Costa destacou-se pela marcação inconfundível do caráter monumental que a nova capital do Brasil exigia
publicado: 10/12/2014 11h34, última modificação: 23/12/2017 11h03
Brasília completa 27 como Patrimônio Mundial nesta quinta-feira (11)

Ideias de transferência da capital do Brasil para um lugar mais centralizado remontam ao período colonial - Foto: Foto:Márcio Cabral

Nesta quinta-feira (11), completam-se 27 anos que Brasília tornou-se patrimônio da humanidade. 

O conjunto urbanístico-arquitetônico cidade, construído a partir do Plano Piloto de Lucio Costa, foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 11 de dezembro de 1987.

Entretanto, as ideias de criação de uma cidade centralizada e de transferência da capital do Brasil remontam ao período colonial. Em 1761, o Marquês de Pombal, então primeiro-ministro de Portugal, propunha mudar a capital do império português para o interior do Brasil Colônia. Mais tarde, a centralização da capital foi defendida pelos Inconfidentes.

Em 1813, o jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, redigiu artigos em defesa da interiorização e, em 1823, José Bonifácio, o Patriarca da Independência, refere-se à futura cidade como Brasília. Igualmente, o historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen fez proposta análoga na segunda metade do século XIX.

Missão Cruls

A primeira institucionalização da ideia veio com a Constituição Republicana de 1891, que fez referência a uma área no Planalto Central a ser “demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Essa demarcação teve início em 1892, com a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, que ficou conhecida como Missão Cruls - chefiada pelo astrônomo Luís Cruls, então diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro.

No entanto, a interiorização da capital do Brasil somente voltou a ser discutida após o fim do Estado Novo, em 1945. Ratificando as conclusões da Missão Cruls, a Comissão de Localização da Nova Capital, criada no governo do presidente Dutra (1946-1951), definiu o território do Distrito Federal.

Durante o governo de Getúlio Vargas (1951- 1954), a Comissão examinou as diferentes alternativas para o assentamento urbano neste território e definiu o sítio da cidade, propondo batizá-la de Vera Cruz, o primeiro nome do País.

O relatório então apresentado incluiu um plano elaborado por José de Oliveira Reis, Raul Pena Firme e Roberto Lacombe, professores de urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1950, foi realizado o levantamento aerofotogramétrico de uma área de aproximadamente 5,8 mil quilômetros quadrados, que corresponde ao atual Distrito Federal.

O idealizador

Eleito presidente, Juscelino Kubitscheck de Oliveira estabeleceu a construção de Brasília como meta-síntese de seu Plano de Metas. Em 1956, foi criada a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e publicado o edital do Concurso do Plano Piloto, o qual já estabelecia os contornos do Lago Paranoá e a localização do futuro aeroporto e do Palácio da Alvorada, residência do Presidente da República.

Oscar Niemeyer foi nomeado diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap e o engenheiro Israel Pinheiro foi indicado para chefiar as obras da construção.

O arquiteto e urbanista Lucio Costa, que via a construção da cidade como “um ato deliberado de posse, um gesto de sentido desbravador nos moldes da tradição colonial”, sagrou-se vencedor do concurso. Havia sido dado o grande passo para o início da construção da Capital da Esperança, cognome dado à cidade pelo então Ministro da Cultura da França, André Malraux.

A proposta de Lucio Costa, única a levar em consideração que a cidade deveria estar funcionando em apenas três anos, apresentou objetivamente o posicionamento, a dimensão e a forma geral das edificações, que poderiam ser rapidamente construídas onde ainda nada havia.

Ao assinalar a localização precisa dos prédios, suas proporções e relações, o plano proposto por Costa dava à Novacap a agilidade necessária para assumir o gerenciamento de sua imediata implantação, sem alterar a imagem projetada da cidade.

Segundo seu criador, Brasília deveria ser não apenas urbs, “capaz de preencher as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer”, mas também civitas, ou seja “possuidora dos atributos inerentes a uma Capital”. Nessa condição de ser ao mesmo tempo urbs e civitas, residem algumas das principais e singulares características de Brasília, reconhecidas pelo júri internacional do Concurso.

O projeto de Lucio Costa foi escolhido por sua simplicidade e clareza e por ter “o espírito do século XX: é novo; é livre; é aberto; é disciplinado sem ser rígido”.

Além da moradia, do trabalho e do lazer – funções estabelecidas pela Carta de Atenas (1933) e presentes nos trabalhos de outros concorrentes –, o projeto de Lucio Costa destacou-se pela marcação inconfundível do caráter monumental que a nova capital do Brasil exigia. Com sua horizontalidade e apenas o centro marcado por edifícios de maior altura, Brasília se adequou a topografia suave do Planalto Central, e ao vasto céu azul, denominado por Lucio Costa como seu mar.

A cidade nasceu com uma filiação própria, uma identidade. O desenho seguro seria capaz de assegurar a manutenção da essência urbana, a despeito das permanências e metamorfoses inerentes aos organismos vivos. E logo que os dois eixos em cruz celebraram a posse, as terras quase infindas passam a ser conformadas para o viver e o conviver humanos.

Da epopeia da construção, que chamou a si brasileiros de todos os rincões, surgiu a cidade que hoje, com 54 anos, continua marcada por suas diferentes escalas de convívio.

Embora se utilizando de princípios da Carta de Atenas (1933), resultante do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), a eles não se limitou. Além das influências manifestas por Lúcio Costa no Relatório do Plano Piloto, pode-se citar a “Cidade Linear” de Arturo Soria y Mata e a “Cidade Jardim” de Ebenezer Howard, como componentes da “síntese urbanística” que determinou a configuração da cidade.

Escalas que marcam a cidade

O gesto primário e as quatro escalas: monumental, residencial, gregária e bucólica, conferem a Brasília um caráter sui generis e tornam a cidade uma das maiores realizações culturais do século XX.

A Escala Monumental, que se configura ao longo do Eixo Monumental e onde se concentram as principais atividades administrativas federais e locais, confere à cidade o caráter de capital. Nesse eixo, que atravessa a cidade do nascente ao poente, destacam-se os dois principais componentes do simbolismo da arquitetura e do urbanismo de Brasília como civitas: a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes.

A Escala Residencial, que tem como espinha dorsal o Eixo Rodoviário, ao longo do qual estão localizadas as Unidades de Vizinhança que, no seu conjunto e sequência, consubstanciam uma nova forma de morar.

A Escala Gregária, localizada no cruzamento dos dois eixos, confunde-se com o centro da cidade, onde se situam os setores Bancário, Hoteleiro, Comercial e de Diversões.

A Escala Bucólica, permeando as outras três e se tornando mais presente na orla do Lago Paranoá, é formada pelas áreas livres e arborizadas, conferindo a Brasília o caráter de cidade-parque. Essas áreas impõem a existência de grandes espaços abertos, pelos quais a presença do céu na paisagem torna-se constante, enfatizando o contraste entre a cidade construída, cultura, e o cerrado circundante, natureza.

Localidades

A Praça dos Três Poderes, na forma de um triângulo equilátero, contém em cada um de seus vértices, simbolizando o equilíbrio entre eles, os poderes fundamentais da República: o Palácio do Planalto, sede do poder executivo; o Supremo Tribunal Federal, sede do poder judiciário e o Congresso Nacional, sede do poder legislativo, projetos do arquiteto Oscar Niemeyer.

Ele é autor também de outras obras na Esplanada dos Ministérios, entre elas, o Palácio Itamaraty, a Catedral, o Teatro Nacional e o Museu Nacional da República. Constituem ainda marcos arquitetônicos as duas únicas edificações projetadas por Lucio Costa em Brasília; a Torre de Televisão e a Plataforma da Rodoviária que, localizada no cruzamento dos eixos, constitui o local mais utilizado pela população da cidade.

A Unidade de Vizinhança, com suas quatro superquadras emolduradas por faixas densamente arborizadas, tem como acesso uma via local, onde se situam o comércio e os serviços de apoio às residências.

Cada superquadra é formada por onze blocos de apartamento sobre pilotis, com um gabarito que varia de três a seis pavimentos. Completam a Unidade de Vizinhança as áreas destinadas a escolas, clubes, bibliotecas, igrejas e outros equipamentos urbanos.

Como disse Lucio Costa, em seu Relatório do Plano Piloto, foram aplicados os princípios francos da técnica rodoviária à técnica urbanística, com a substituição das tradicionais ruas e esquinas pelas pistas ou eixos, onde sobressaem os trevos e as passagens de nível, eliminando-se os cruzamentos e separando-se a circulação de pedestre da de veículos. 

Integração complementar

A integração entre o urbanismo, a arquitetura e as artes plásticas é uma de suas características. Ao Meteoro do artista Bruno Giorgi, que marca o espelho d’água do Palácio Itamaraty, juntam-se os Evangelistas de Alfredo Ceschiatti, que compõem o conjunto da Catedral Metropolitana, e os sólidos geométricos de Athos Bulcão, nas empenas do Teatro Nacional.

Obras de Marianne Perretti, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Emanuel Araújo, Franz Weissman, Manabu Mabe, Maria Martins, Mary Vieira, Pedro Américo, Rubem Valentim, Sérgio Camargo, Victor Brecheret e outros marcam edifícios de Brasília, reafirmando sua modernidade.

Essa integração vai ao encontro da intenção de Lucio Costa, o criador da cidade. Para ele, a arquitetura moderna poderia atingir “formas superiores de expressão, contando para tanto com a colaboração da pintura e da escultura”.

Importante também mencionar a contribuição do engenheiro Joaquim Cardozo, autor do cálculo estrutural dos principais edifícios criados por Oscar Niemeyer, e Roberto Burle Marx, responsável pelo paisagismo de diversos edifícios e espaços públicos da cidade.

A inscrição do Plano Piloto de Brasília na Lista do Patrimônio Mundial deveu-se, sobretudo, a sua singularidade, à manutenção de seus princípios fundadores e  ao  caráter universal de sua concepção.

Fonte:

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

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