Saúde
Estudo cria nova forma de diagnóstico para meningites
Inovação
Pesquisadores do Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas) depositaram no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pedido de patente para o kit de diagnóstico diferencial de meningites. O kit é resultado do trabalho liderado pelo pesquisador em Ciências Médicas (Microbiologia, Universidade René Descartes) Roney Coimbra, com potencial para mudar o panorama dos diagnósticos e tratamentos das meningites no Brasil. Segundo a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Minas, Cristina Carrara, a invenção possibilita, por meio da “detecção combinada e análise sequencial de biomarcadores específicos”, um diagnóstico preciso e eficiente das meningites. Na entrevista, Coimbra esclarece os passos da pesquisa.
Na prática, como funcionará a invenção?
Por meio da análise do líquido cefalorraquidiano, ou líquor (fluido corporal que fica entre as membranas aracnoide e pia-máter das meninges e que também preenche as cavidades intracisternais do cérebro), verificamos a presença de biomarcadores, proteínas da resposta inflamatória dos hospedeiros humanos de meningite. Estudando esses biomarcadores, conseguimos estabelecer, com precisão, qual agente etiológico da meningite infectou o paciente. Essa informação é fundamental para a decisão clínica pela abordagem terapêutica correta.
E essa análise é feita em laboratório?
Estamos padronizando um teste imunológico do tipo ELISA (enzyme-linked imune assay) para validação do método preditivo em um painel amplo de amostras de líquor de pacientes. Com essa versão do teste, o exame será realizado em laboratório. Além disso, estabelecemos uma parceria com uma empresa de biotecnologia brasileira para o desenvolvimento de um teste empregando aptâmeros (anticorpos artificiais) e leitura dos resultados em sistema de eletroforese capilar, o que possibilitará que o diagnóstico seja feito em poucos minutos e no próprio hospital.
Por que a velocidade é tão importante no diagnóstico?
O indivíduo, ao buscar ajuda para uma suspeita de meningite, normalmente está em um estágio avançado da doença, por isso a janela temporal de tratamento já está pequena. O médico tem que decidir sem demora o que fazer, e os testes para meningite atuais são imprecisos e inexatos. O clínico precisa de um teste point-of-care (testes realizados perto de onde o paciente está) que seja acurado e rápido.
Mas é possível realizar um teste 100% eficiente?
Nenhum exame tem 100% de sensibilidade e especificidade (medidas usadas em testes de laboratório que medem, respectivamente, a capacidade do teste em identificar corretamente a doença entre aqueles que a possuem e de excluir corretamente aqueles que não possuem a doença). Mas queremos chegar tão perto disso quanto possível.
Quais as principais vantagens do novo kit de diagnóstico em relação ao método antigo?
O método antigo, por ser lento e impreciso, tem como consequência um grande número de internações preventivas e o uso desnecessário de antibióticos. O diagnóstico rápido evita essas circunstâncias e possibilita o tratamento adequado e imediato. Além disso, o novo teste aumenta a janela temporal de diagnóstico, tornando possível o diagnóstico correto mesmo após a eliminação dos patógenos. Por fim, os resultados não são influenciados pela presença de material genético ou resquícios de patógenos já eliminados, o que é extremamente importante porque a resposta inflamatória exacerbada do paciente pode levá-lo a óbito ou causar lesões mesmo depois da eliminação dos patógenos.
Que parcerias influenciaram no desenvolvimento do trabalho?
Além da Dra. Rosiane Pereira, pesquisadora do CPqRR e coproponente deste projeto junto ao CNPq, tivemos a colaboração das equipes das Plataformas PDTIS de eletroforese 2D (BH), da plataforma PDTIS de Bioinformática (BH) e de espectrometria de massas (RJ), de uma aluna de iniciação científica e uma de mestrado e de colaboradores do Hospital João Paulo II – FHEMIG, que será coproprietário da patente.
Seus estudos sobre o tema estarão encerrados após a finalização da invenção ou pretende se aprofundar mais?
Obtivemos outro resultado importante com o projeto: a identificação de alvos terapêuticos, moléculas cruciais da resposta inflamatória aos patógenos das meningites cujas atividades biológicas podem ser moduladas com fármacos. A partir desta descoberta, iniciamos novos estudos, já em progresso, utilizando modelos experimentais de meningites malignas, visando prevenir a mortalidade e as sequelas decorrentes da doença.
Fonte:
Fundação Oswaldo Cruz
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