Saúde
Transplante no SUS dá esperança para portadores de anemia falciforme
Consciência Negra
Doença genética que se desenvolve, principalmente, na população negra, a anemia falciforme terá no Sistema Único de Saúde (SUS) a possibilidade de cura definitiva. Isto porque o SUS adotou, no último mês de julho, o transplante de medula óssea como parte do tratamento da doença.
A disponibilidade do transplante é vista como um avanço. “É uma novidade a anemia falciforme ter sido considerada uma doença elegível para transplante de medula óssea pelo SUS. Essa é uma evolução. Tem crianças que, pela dificuldade que vêm enfrentando, que não respondem ao hidróxido de ureia, podem ser elegíveis ao transplante”, indica a hematologista e coordenadora do Hospital da Criança de Brasília, Isis Magalhães.
A hematologista alerta, contudo, que o transplante deve ser feito apenas em casos mais críticos, já que o paciente precisa passar por sessões de quimioterapia antes do procedimento cirúrgico para eliminar os glóbulos doentes do sangue.
O risco está no fato do falcêmico ter baixa imunidade, ou seja, a quimioterapia pode colocá-lo em exposição a infecções e outras complicações letais.
“O transplante cura. O risco é a quimioterapia, que é parte do condicionamento para destruir o sistema deficiente. Esse processo terapêutico em si é mais complicado. É preciso identificar o perfil de quem pode fazer o tratamento”, observa.
A anemia falciforme teve origem no continente africano e se desenvolve mais na população afrodescendente. Embora não exista uma conclusão sobre seu desenvolvimento, alguns cientistas acreditam que os africanos precisaram desenvolver anticorpos para outras doenças, como a malária. Isso pode ter impactado a formação do sangue, gerando a anemia falciforme. “A doença veio para cá pela migração dos indivíduos do continente africano para o Brasil”, observa Isis Magalhães.
A doença é genética. Ela deforma a hemoglobina, a proteína do sangue responsável por oxigenar os glóbulos vermelhos. Pais com o chamado “traço falciforme” carregam esse gene alterado sem desenvolver a doença. Já os filhos desenvolvem a anemia a partir do traço herdado dos pais. Como a hemoglobina ganha o formato de uma foice, a doença é chamada de falciforme. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponibiliza uma cartilha detalhando a doença.
"Teste do Pezinho"
Antes do transplante, no entanto, é preciso identificar a doença. Em 2001, o SUS incluiu a anemia falciforme no grupo de doenças identificáveis pela Triagem Neonatal Biológica (TNB), o “Teste do Pezinho”. Isso tem ajudado a mudar o rumo do tratamento da enfermidade responsável por reduzir a imunidade dos portadores, obstruir vasos sanguíneos e até causar Acidente Vascular Cerebral (AVC) e crises musculares lancinantes (o priapismo).
O teste foi um dos fatores que levou o SUS a registrar 49.521 internações de pessoas falcêmicas entre 2010 e 2014. De acordo com o Ministério da Saúde, somente em 2014 foram realizados 2,4 milhões de testes do pezinho no âmbito do Programa Nacional de Triagem Neonatal.
Os nascidos antes de 2001, quando a anemia falciforme foi incluída no "Teste do Pezinho", podem fazer o exame de sangue chamado "eletroforese de hemoglobina" para descobrir se são portadores da doença. O exame também pode ser feito por casais para saber se carregam o gene causador da doença. Em ambos os casos, os exames podem ser feitos na rede do SUS.
Isis, que é a coordenadora técnica do Hospital da Criança de Brasília (HCB), vinculado ao SUS, afirma que o "Teste do Pezinho" é fundamental para melhorar a qualidade de vida dos portadores de anemia falciforme a partir do diagnóstico precoce.
Tratamento
Segundo a hematologista, o programa de assistência neonatal articula a rede de atendimento a partir da identificação da enfermidade. “A criança detectada no "Teste do Pezinho" é acolhida por uma assistente social, psicólogo e médico. Nós apoderamos os pais com conhecimento sobre a doença e começamos a fazer profilaxia para prevenir as complicações”, diz.
O tratamento começa com o uso de penicilina a partir dos três meses até os 5 anos de idade e a aplicação de vacinas específicas para evitar a contaminação por bactérias – especialmente pelo pneumococo causador da pneumonia. A criança passa a ser acompanhada periodicamente, em especial no primeiro ano de vida.
“A criança vai sendo acompanhada em consultas regulares e o tratamento vai sendo acomodado às necessidade de cada uma, porque nem todas desenvolvem a doença com as mesmas complicações”, explica.
A criança passa a ser tratada com hidróxido de ureia a partir dos 5 anos. Ela passa também por exames neurológicos que permitem saber se existe tendência de AVC em função da obstrução das veias cerebrais.
“A gente já está conseguindo fazer uma profilaxia primária, antes de ter o AVC. A ideia é que o paciente não tenha AVC. É um grande avanço a gente fazer isso no SUS e as pessoas terem acesso a isso é muito gratificante”, diz Isis.
A prevenção aos acidentes vasculares é feita com transfusões periódicas de sangue, que também são adotadas em casos nos quais ocorre o chamado "sequestro do baço". Ou seja, quando o baço, ao invés de servir como um depurador do sangue, começa a absorvê-lo e a inchar.

Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Saúde
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