Saúde
'Boatos que negam relação entre zika e Aedes atrapalham combate ao mosquito'
Dia Nacional de Mobilização Zika Zero
A maior preocupação do governo e da sociedade brasileira deve ser o combate incessante aos focos de proliferação do Aedes aegypti, uma vez que o mosquito é o principal vetor de transmissão do vírus zika, que comprovadamente tem relação com o aumento no número de casos de microcefalia em recém-nascidos.
A avaliação é do médico Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde e uma das principais autoridades envolvidas no esforço de enfrentamento da doença, que, até 2015, não havia sido registrada no País.
Para Maierovitch, boatos e teorias da conspiração sobre a origem da epidemia só desviam o foco do primordial: o combate à proliferação do mosquito, que neste sábado ganha um passo importante: o “Dia Nacional de Mobilização Zika Zero”.
“Qualquer boato que diga que o grande problema que a gente vive não é a transmissão pelo Aedes aegypti pode prejudicar o combate ao mosquito. Não temos dúvida nenhuma de que o mosquito é o grande transmissor do vírus zika e que isso é o que vem causando os casos de microcefalia, que vem aumentando desde agosto de 2015”, afirma.
Em entrevista ao Portal Brasil, Maierovitch explica também porque a expectativa do governo é de que seja baixo o nível de transmissão do zika durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, marcado para acontecer em agosto. “Ao longo do ano, em geral, temos transmissão muito intensa de dengue até maio. Em junho começa cair, e em julho costumamos estar em nível bem baixo. Esperamos que o vírus zika se comporte da mesma forma e que no período das Olimpíadas não tenhamos uma transmissão importante”, diz.
Leia a íntegra da entrevista:
Portal Brasil: Como o vírus zika, causador de microcefalia, chegou ao Brasil?
Cláudio Maierovitch: Nunca saberemos direito como o vírus chegou ao Brasil. Antes, ele estava restrito ao continente africano e à Ásia. Um pouco na Oceania também, onde houve epidemias em ilhas distantes do continente americano. Tem gente que acha que foi pelo número de visitantes que veio ao País na época da Copa ou em outro grande evento no Brasil. O fato é que o vírus chegou e se espalhou rapidamente pela região Nordeste e hoje o que menos importa é como ele chegou.
Portal Brasil: O que mais importa?
Maierovitch: Depois da chegada do zika vírus, como era uma situação absolutamente nova, demorou um pouco até que houvesse um diagnóstico. Os profissionais do Brasil não tinham qualquer experiência com o zika vírus. O Ministério da Saúde, com as secretarias Estaduais e municipais, trabalhou muito para obter o diagnóstico de uma doença diferente que havia aparecido.
Portal Brasil: O que foi feito?
Maierovitch: Nós achávamos, naquela época, que era uma doença leve, sem consequências mais graves, até que, no meio do segundo semestre de 2015, começou-se a identificar crianças com microcefalia nascidas de mães que tiveram infecção pelo vírus zika no início da gravidez. Essa passou a ser a grande preocupação: o nascimento de crianças com má-formação congênita grave, uma microcefalia, relacionada à infecção pelo vírus zika no início da gravidez.
Portal Brasil: Há outra forma de transmissão do vírus além do Aedes aegypti?
Maierovitch: Não há dúvida de que o mais importante é a transmissão pelo mosquito Aedes aegypti. Não se sabe se outro mosquito pode transmitir. Há indícios fortes de que, durante a doença aguda e mesmo semanas seguintes, possa haver transmissão sexual, isso é o que se tem documentado até agora.
Portal Brasil: E sobre a presença do vírus na saliva e no leite materno?
Maierovitch: Existem laboratórios que identificam presença do vírus em saliva e em leite materno. No entanto, não se sabe se isso tem significado na transmissão. O mais importante é o mosquito. Como as gestantes são as pessoas com as quais mais nos preocupamos, mesmo que estejam protegidas contra o mosquito, devem adotar medidas de proteção contra outras formas de contato, em especial o uso do preservativo em todas as relações.
Portal Brasil: Quais são os boatos que mais prejudicam o combate ao mosquito?
Maierovitch: Qualquer boato que diga que o grande problema que a gente vive não é transmissão pelo Aedes aegypti pode prejudicar o combate ao mosquito. Não temos dúvida nenhuma de que o Aedes aegypti é o grande transmissor do vírus zika e que isso é o que vem causando os casos de microcefalia, que vem aumentando desde agosto de 2015.
Portal Brasil: Os boatos sobre vacina continuam?
Maierovitch: Tivemos vários boatos sobre porque a microcefalia surgiu e atribuindo a outras causas que não o vírus. Houve disseminação de um boato de que havia vacinas com problemas e que poderiam causar problemas congênitos. Isso não tem qualquer sentido. Nossas vacinas são compradas do exterior e usadas no mundo inteiro, não faz o menor sentido isso.
Portal Brasil: Há outros tipos de boatos?
Maierovitch: Surgiram boatos de que uma experiência em duas cidades das Bahia com mosquito transgênico [que tem alteração genética intencional para que seus descendentes não cheguem à vida adulta] poderia ser causa de mutações do vírus zika.
Portal Brasil: Isso tem alguma procedência?
Maierovitch: Não tem qualquer relação. O material genético do vírus não se mistura com o material genético do mosquito, são materiais diferentes mesmo que um seja portador do outro. Outras pessoas têm levantado outros boatos como o da contaminação ambiental e coisas equivalentes. Tudo isso é especulação.
Portal Brasil: Qual é a diferença entre zika, dengue e chikungunya?
Maierovitch - São três doenças diferentes, causadas por vírus diferentes, transmitidos pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti. Elas têm semelhanças, podem ser confundidas, todas podem causar febre e dores no corpo. No entanto, cada uma tem uma marca característica.
Portal Brasil - Quais são essas marcas?
Maierovitch - A dengue tem como marca a dor atrás dos olhos e dores muito fortes no corpo inteiro. A chikungunya tem como marca principal a dor nas articulações, dificuldade para caminhar e para ficar em pé. No caso de zika, a marca principal são manchas na pele, coceira no corpo e olhos vermelhos.
Portal Brasil - Ao detectar os sintomas, o que o doente deve fazer?
Maierovitch - Em geral, quando a pessoa começa a ter algum desses sintomas, o importante é se hidratar bem. Não tomar medicamento sem saber o que for. Se for o caso, tomar um analgésico que não seja a base do ácido acetilsalecílico [fármaco encontrado no AAS, Aspirina, Melhoral] e procurar o serviço de saúde para ser diagnosticado e medicado.
Portal Brasil - Quais cuidados devem ser adotados durante a Olimpíada?
Maierovitch - Como o vírus zika é transmitido pelo mesmo mosquito que transmite a dengue, imaginamos que o comportamento seja semelhante. Ao longo do ano, em geral, temos transmissão muito intensa de dengue até maio, em junho começa cair e em julho costumamos estar em nível bem baixo. Esperamos que o vírus zika se comporte da mesma forma e que no período das Olimpíadas não tenhamos uma transmissão importante. Claro, além da expectativa de que todo o trabalho de prevenção e combate ao mosquito produza resultados, reduzindo a transmissão e todas as doenças veiculadas pelo mosquito Aedes aegypti.
Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Saúde

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