Elas fazem a diferença
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Leila Diniz
Quando o avião em que Leila Diniz caiu sobre os arredores do aeroporto de Nova Délhi, na Índia, em 14 de julho de 1972, a atriz acabara de receber um dos poucos prêmios de sua curta e intensa carreira de sete anos – foram 14 filmes, 12 novelas para televisão (caso de O Sheik de Agadir) e dezenas peças teatrais. Ela tinha sido eleita melhor atriz do Festival Internacional de Adelaide por seu trabalho no filme Mãos Vazias.
Nascida em Niterói em 25 de março de 1945, Leila cursou o magistério e foi professora de jardim de infância dos 15 aos 17 anos (ela já escandalizava os pais das crianças por tratar os alunos como iguais). Nesta época, conheceu o diretor de cinema Domingos de Oliveira e saiu de casa para se casar com ele. Aos 20, já separada, começou a atuar – chegaria a participar, em 1966, de Todas as Mulheres do Mundo, filme de seu ex-marido.
Pouco tempo depois, casou-se com outro diretor, o moçambicano Ruy Guerra, com quem teve uma filha, Janaína. No final dos anos 1960, já era uma personalidade conhecida pela imprensa carioca por conceder entrevistas sinceras e polêmicas. Uma em especial, concedida ao jornal O Pasquim em 1969, foi responsável pelo recorde de vendas da publicação e foi publicada com 72 asteriscos – um para cada palavrão que ela disse. Uma declaração em especial causou grande repercussão: “Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.”
Depois da entrevista, Leila teve de se esconder no banco de trás do carro do apresentador Flávio Cavalcanti, de cujo programa ela era jurada, porque a Polícia Federal tinha ido ao estúdio para procurá-la. Depois de alguns dias escondida na casa de Cavalcanti em Petrópolis, ela aceitou assinar um documento em que se comprometia a não falar mais palavrões em público.
- Leila foi eleita melhor atriz do Festival Internacional de Adelaide por seu trabalho no filme Mãos Vazias
Neste meio tempo, ela atuava em peças como O preço de um homem, com Cacilda Becker, e revolucionava o teatro de revista ao atuar como corista no show Tem banana na banda, que reunia textos de Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Versátil, podia atuar em um filme clássico como Fome de amor, de Nelson Pereira dos Santos, e também ser eleita a Grávida do Ano pelo apresentador Chacrinha.
Outra atitude marcante de independência feminina foi posar para fotos usando apenas um biquíni, grávida de Janaína, na praia de Ipanema. Naquele ano, 1971, considerava-se que mulheres grávidas deviam se comportar de forma recatada e evitar expor o próprio corpo. Nada disso fazia sentido para uma mulher que escolhia os homens com quem se deitava – mas, quando recebeu de um empresário paulista uma proposta de fazer sexo por dinheiro, respondeu: “Eu me deito com todo mundo. Mas não com qualquer um”.
Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade diante da notícia do acidente aéreo, “Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão.” Em um momento de grandes mudanças de comportamento, Leila Diniz se revelou a grande porta-voz da espontaneidade, de jovialidade e do amor livre. Também era uma mãe dedicada: ela morreu no acidente aéreo porque antecipou o voo por saudades da filha, que na época tinha apenas sete meses.
Fonte:
Ela é Carioca: uma enciclopédia de Ipanema, Ruy Castro, Companhia das Letras, 1999



