Literatura
Mário de Andrade (1893-1945)
O poeta declamou: “Morte ao burguês!”. Seguem-se vaias, batidas de pés, batatas jogadas no palco, gritos. Alto, queixo enorme, um início de calvície, o pacato e tímido Mário de Andrade estava transfigurado. Os senhores de casaca e suas esposas escandalizadas aproveitavam o intervalo para se retirar. No saguão, entretanto, havia uma grande confusão. Lá estavam expostos quadros horríveis, cheios de manchas coloridas, que chamavam de arte moderna. E o poeta desaforado estava ali, falando entusiasmado sobre as telas, enquanto os espectadores assoviavam. A conferência, no entanto, não foi curta, e as vaias foram diminuindo. Houve quase silêncio, apenas acompanhado de olhares reprovadores. Mário reclamou: “Se não houver vaias eu não falo mais!”. Assim foi a Semana de Arte Moderna de 22, da qual Mário de Andrade foi um dos protagonistas.
Nascido em São Paulo em 1893, ele punha uma palpitante inquietação intelectual em tudo o que fazia: poeta, romancista, contista, crítico literário, teórico de arte, musicólogo, folclorista. Dirigiu, ainda, o Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, reorganizou o Instituto Nacional do Livro e elaborou o anteprojeto do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Em 1911, Mário ingressou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Seis anos depois, quatro fatos importantes marcaram sua vida: a morte do pai, a conclusão do curso de piano, o início da amizade com Oswald de Andrade e a estréia literária, com o livro Há uma Gota de Sangue em Cada Poema.
Em 1921, já integrante do grupo modernista de São Paulo, publicou uma série de artigos no Jornal do Comércio, nos quais analisa a poesia de autores consagrados do Parnasianismo: “Malditos para sempre os Mestres do Passado! Que o universo se desmantele porque vos comportou! E que não fique nada! Nada! Nada!”.
Em 1922, participa ativamente da Semana de Arte Moderna. No segundo dia de espetáculos, durante o intervalo, em pé na escadaria, Mário de Andrade leu algumas páginas de A Escrava que não é Isaura. O público reagiu com vaias. Publicou, no mesmo ano, o livro de poemas Paulicéia Desvairada, cujo Prefácio Interessantíssimo sistematiza as bases estéticas do Modernismo.
Ainda nesse período colabora com as revistas Klaxon, Estética e Terra Roxa. Em seu primeiro romance, Amar, Verbo Intransitivo, Mário desmascara a estrutura familiar paulistana. Ele também escreveu importantes ensaios, reunidos em volumes como O Empalhador de Passarinhos. Mas sua grande obra foi mesmo Macunaíma, de 1928, um marco na literatura brasileira. Combinando romance, epopéia, mitologia, folclore e história, Mário traça um perfil do brasileiro, com seus defeitos e virtudes, criando a saga do herói sem caráter.
Fonte:
Livro 100 Brasileiros (2004)



