Cidadania e Justiça
"Foco de criminalidade migrou para estados emergentes", afirma sociólogo
Entrevista
Desde a virada do século, o foco de violência no Brasil migrou das grandes metrópoles para cidades de médio porte de estados como Alagoas, Espírito Santos e Paraíba. É essa a conclusão do último Mapa da Violência, série de estudos publicada desde 1998 e feita sob a coordenação de Julio Jacobo Waiselfisz, sociólogo argentino radicado no Brasil.
O trabalho verifica a incidência da vitimização negra nas unidades da federação, nas capitais e nos municípios brasileiros. Com base em dados do Ministério da Saúde, mostra ainda o impacto da criminalidade na expectativa de vida da juventude, faixa da população vítima de mais da metade dos homicídios no Brasil. O estudo registra ainda que os índices de vitimização da juventude negra superam com larga margem os da população branca.
Confira a seguir entrevista do Portal Brasil com o sociólogo responsável pelo estudo.
Portal Brasil - O Mapa da Violência é publicado desde 1998. O que mudou nestes 16 anos?
Julio Jacobo Waiselfisz - Houve um processo de ruptura na dinâmica da violência. Podemos localizar esse movimento na virada do século. Em meados da década de 90, o foco da violência estava localizado em grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Vários fenômenos aconteceram para influenciar a reestruturação do mapa da violência. Primeiro houve uma mudança nos padrões de desenvolvimento econômico, de maneira que o crescimento de cidades tradicionais estagnou enquanto houve emergência de novas metrópoles.
Surgem polos que até então apresentavam taxas modestas de desenvolvimento como Camaçari e Suape e atraem um fluxo de migração para localidades onde o esquema de segurança é arcaico, pouco preparado e com poucos recursos humanos. Essa reestruturação dá origem a uma reorganização da violência nacional.
Como se deu a evolução dos índices de homicídios na história recente do País? Estamos diante de um quadro favorável?
Temos registros fidedignos de taxas de homicídios a partir da década de 80. Eles mostram que os homicídios cresceram de 1980 até mais ou menos 2003, quando a taxa fica estagnada - um movimento que coincide com a implementação da Campanha de Desarmamento.
As taxas de homicídio começam a cair pela primeira vez na história brasileiras e assim permanecem durante dois anos. A partir de então, os índices voltaram a subir em um ritmo cadenciado.
É possível projetar o quadro da violência para os próximos anos?
A tendência é aumentar e digo o motivo: há alguns estados, como São Paulo, cujos programas de juventude e políticas públicas, contiveram o crescimento da criminalidade. Entretanto, estados emergentes respondem por aumentos expressivos e carregam a taxa para cima.
É difícil crer que São Paulo e Rio de Janeiro não estão entre as cidades mais inseguras do País. Por qual motivo, em uma primeira leitura, esta informação surpreende?
Quando publicamos a primeira edição do estudo, na qual o Espírito Santo foi identificado como o estado mais violento, notamos que São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília têm destaque nacional. Já Pernambuco, por exemplo, tem projeção regional – ou seja, pouco do que ocorre no estado é noticiado.
Perfil
Julio Jacobo Waiselfisz é formado em Sociologia pela Universidade de Buenos Aires e é mestre em Planejamento Educacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordenador da Área de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), já foi Diretor de Pesquisa do Instituto Sangari, exerceu funções de Coordenador Regional da Unesco em Pernambuco, Coordenador de Pesquisa e Avaliação e do setor de Desenvolvimento Social da UNESCO/ Brasil
Anteriormente, exerceu as funções de consultor e/ ou especialista em diversos Organismos Internacionais do Sistema das Nações Unidas, como o Pnud, e OEA, o IICA e a Unesco. Autor do Mapa da Violência e outros estudos de referência na área de combate à violência.
Confira aqui o Mapa da Violência de 2013.
Fonte:
Portal Brasil
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