Ciência e Tecnologia
Audiência discute eucalipto geneticamente modificado
Biossegurança
Pesquisadores, gestores públicos, empresas, apicultores e agricultores estiveram reunidos, nesta última quinta-feira (4), em Brasília, para discutir os benefícios e os possíveis riscos da liberação comercial do eucalipto geneticamente modificado (transgênico) H421. A tecnologia foi apresentada pela empresa FuturaGene Brasil Tecnologia e está em análise na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
As discussões foram pontuadas por questões como a qualidade das pesquisas, a necessidade de novos modelos de negócios para atender as demandas de mercado, o consumo de água das árvores, o fluxo genético para outras variantes e o possível impacto na mortalidade de abelhas, na produção e na exportação de mel.
O vice-presidente para Assuntos Regulatórios da FuturaGene, Eugênio Ulian, apresentou as vantagens e defendeu a importância da nova tecnologia, que, segundo ele, pode permitir o aumento de até 20% na produtividade do eucalipto para celulose, papel e energia. "Maior produtividade significa maior sequestro de carbono, a possibilidade de redução de pressão sobre as florestas e um ganho social, porque os pequenos produtores rurais terão livre acesso a essa tecnologia", afirmou.
"Esse produto vem sendo desenvolvido há mais de 12 anos e estão sendo feitos plantios em campo há mais de sete anos, que é o ciclo comercial do eucalipto", disse. "E os estudos feitos são adequados para responder as perguntas sobre a segurança do produto", afirmou representante da empresa ao ser questionado sobre as avaliações realizadas.
Para o representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Leonardo Melgarejo, a pesquisa é muito incipiente para uma nova tecnologia nova em escala mundial. "Os estudos e testes que estão dando base ao pedido de liberação comercial entraram na CTNBio em 2011. Não se trata de ser contra ou a favor. Trata-se de ser coerente com o esforço de pesquisa", comentou.
Pontos de vista
A presidenta da Indústria Brasileira de Árvores, Elizabeth Carvalhaes defendeu a necessidade de novas tecnologias para atender a demanda global devido ao crescimento populacional. "A necessidade de madeira vai aumentar enormemente, não é possível atender o mercado sem entrar em novas tecnologias, nos organismos geneticamente modificados e nas nanotecnologias", enfatizou. A associação representa os produtores de florestas plantadas que produzem celulose, papel, painéis de madeira, entre outros.
Já para o engenheiro florestal Dário Grattapaglia, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os estudos são suficientes para a tomada de decisão. "Evidente que sempre haverá alguma dúvida, mas existem fortes indícios que estamos tratando de um evento seguro para a liberação. Os estudos de forma profunda e por muitos anos. Não existe, ao meu ver e de muitos cientistas, um risco para a biossegurança humana e animal e para o meio ambiente", observou.
A bióloga e diretora de pesquisa e desenvolvimento da Fundação Ezequiel Diaz, Esther Bastos, apresentou as preocupações em relação ao impacto na produção e na exportação de mel, própolis e derivados. "O eucalipto é a principal fonte de néctar e pólen para a apicultura no Brasil e a introdução de uma floresta transgênica para substituir os nossos cultivos tradicionais de eucalipto vai inviabilizar o crescimento da nossa apicultura", alertou.
A diretora do Departamento de Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Eliana Maria Fontes, sustentou a necessidade de maior reflexão e cautela diante da oportunidade de discutir uma nova tecnologia no mundo. "É preciso considerar se essa tecnologia vai realmente resolver um gargalo tecnológico significativo e considero muito importante essa questão do efeito sobre as abelhas. Isso ainda não foi realmente esclarecido", afirmou.
Segundo o presidente da comissão nacional, Edivaldo Velini, a audiência teve por objetivo apresentar as diferentes vertentes de pensamentos sobre a tecnologia, com o objetivo de informar e ajudar na construção de uma decisão mais segura para o Brasil. "A ideia é que essa discussão sirva de instrução aos membros da CTNBio que precisam tomar uma decisão bastante complexa, considerando todos os possíveis riscos relacionados à segurança da tecnologia", disse. "A audiência não é necessariamente um encerramento, mas um ponto inicial no debate."
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