Cultura
Roda de capoeira representa a identidade e a diversidade brasileira
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Decisão promoverá o aumento da visibilidade dos bens culturais relacionados aos movimentos de luta contra a opressão
A Roda de Capoeira está prestes a ser reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Nesta quarta-feira (26), em Paris, o Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural e Imaterial da Unesco anuncia sua decisão.
O reconhecimento vai além da mera documentação e anúncio do fato e também passa pela representação da identidade brasileira, sua história e costumes, bem como difunde os valores éticos da prática.
Na delegação que representa o Brasil na França estão a presidenta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado, e a Diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial (DPI-Iphan), Célia Corsino, seguras de que, dada a avaliação técnica do dossiê apresentado à Unesco, a Roda de Capoeira se juntará ao Samba de Roda do Recôncavo Baiano (BA), à Arte Kusiwa- Pintura Corporal (AP), ao Frevo (PE), e ao Círio de Nazaré (PA), já reconhecidos como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Segundo a presidenta do Iphan, a inscrição da Roda de Capoeira na lista representativa promoverá o aumento da visibilidade desse e de outros bens culturais relacionados aos movimentos de luta contra a opressão, sobretudo aqueles pertencentes às comunidades afrodescendentes.
"A roda de capoeira expressa a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão. Seu reconhecimento como patrimônio demarca a conscientização sobre o valor da herança cultural africana, que, no passado, foi reprimida e discriminada", conclui Jurema Machado.
Diversidade
Quem também acredita nos benefícios do reconhecimento para a cultura do País e para a própria prática é a técnica do Iphan Natália Guerra. Para ela, que participou dos estudos e da promoção da capoeira de roda como patrimônio histórico, a decisão promove e mostra ao mundo a diversidade cultural brasileira.
“A capoeira e os outros itens vão compondo uma imagem que no Brasil existe uma diversidade cultural grande. Temos uma sociedade formada por diferentes grupos e é isso que estamos mostrando ao mundo“, analisou.
Ainda segundo a técnica do Iphan, essa política de valorização do patrimônio imaterial dá visibilidade para outros grupos que não tiveram a oportunidade de deixar obras palpáveis perante a nação. Com isso, a visão e o retrato da cultural brasileiro ao longo da história ficam mais amplos.
“Nem todos os grupos tiveram como vestígios obras arquitetônicas ou bem materiais que representassem perante a nação. Antes tínhamos uma visão muito restrita. Existia aquela ideia do Brasil católico e branco que está representado nas grandes obras de arte, na arquitetura modernista. Com isso, não se tinha a de outros grupos sociais que são tão importantes para a cultura brasileira. O País não se restringe só a retratos dos livros antigos, que também são positivos e importantes, mas que não são suficientes para mostrar o que é o Brasil”, destacou.
História
Originada no século XVII, em pleno período escravista, a capoeira desenvolveu-se como forma de sociabilidade e solidariedade entre os africanos escravizados, estratégia para lidarem com o controle e a violência.
Hoje, é um dos maiores símbolos da identidade brasileira e está presente em todo território nacional, além de praticada em mais de 160 países, em todos os continentes.
A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira foram reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan em 2008, e estão inscritos no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.
Profundamente ritualizado, o espaço da Roda reúne cantos e gestos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia, um código de ética, e revelam companheirismo e solidariedade.
É na roda de capoeira que se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores tradicionais afro-brasileiros. Forma redes de sociabilidade, gera identidades comuns e laços de cooperação entre seus integrantes. É o lugar de socialização de conhecimentos e práticas; de aprender e aplicar saberes, testar limites e invenções, reverenciar os mais velhos e improvisar novos cantos e movimentos.
Metaforicamente representa a roda do mundo, a roda da vida, onde há lugar para o inesperado, onde ora se ganha ora se perde. A roda também tem a função de difundir os símbolos e valores relacionados à diáspora africana no território brasileiro. Leva a mensagem de resistência sobre o sistema escravagista.
Fonte:
Portal Brasil, com informações do Ministério da Cultura e Iphan
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