Esporte
Ex-jogador da Seleção, Zinho relembra sua história
Tetracampeão
Participante da campanha brasileira do Tetra em 1994, o jogador Zinho iniciou a relação com a Seleção por vias tortas, aos três anos, quando se perdeu da família durante a comemoração do tri. Ali a mãe do atleta, Moyseslita, rezou e disse que, se o encontrasse, o menino atuaria pelo Brasil.
O menino de Nova Iguaçu (RJ) tinha três anos quando o País explodia em festa com o tricampeonato mundial de futebol, conquistado no México. Mas o pequeno Crizam César de Oliveira Filho foi motivo de preocupação naquele 21 de junho de 1970. No meio da comemoração, ele se perdeu em Petrópolis, outra cidade do Rio de Janeiro. A mãe fez todas as preces para o filho reaparecer.
Hoje, Zinho é Gerente de Futebol do Santos e tem na bagagem uma enorme lista de títulos como jogador, que inclui Copa do Brasil, cinco campeonatos brasileiros - um recorde - , Taça Libertadores e inúmeros estaduais.
“A minha família saiu para me procurar e por sorte me encontrou. Mas dizem os familiares que ali a minha mãe profetizou. Ela era muito religiosa, então rezou muito e disse que, se eu aparecesse, ainda ia me ver na Seleção”, disse o canhoto Zinho.
Ele, de fato, foi campeão do mundo, em 1994, na Copa do tetra nacional, disputada nos Estados Unidos. Mas dona Moyseslita e Zinho não comemoraram juntos. “Ela faleceu no dia em que a gente se classificou para a Copa, quando ganhamos de 2 x 0 do Uruguai, no Maracanã. Fui direto de lá para o hospital. Quando cheguei, minha mãe estava entubada. Ainda apertei a mão dela. No dia seguinte, as manchetes eram de classificação para a Copa e eu estava no cemitério enterrando minha mãe. Ganhar a Copa foi para ela”, contou o jogador.
Muitos dos que assistiram ao desempenho de Zinho naquela Copa não reconheceram o meia ofensivo que encantava no Palmeiras. O encaixe no esquema tático do técnico da Seleção, Carlos Alberto Parreira, fez com que ele jogasse de forma diferente, dando mais apoio à defesa.
“Eu gostaria de ter tido mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, sempre fui um jogador obediente taticamente e coletivo, sempre pensei no ‘nós’ e não no ‘eu’. O meu posicionamento em campo era diferente, mas a minha importância para o jogo era igual”, disse.
A conquista do Mundial, segundo ele, mostrou que o sistema deu certo. Mas Zinho não escapou das críticas e ganhou o apelido de enceradeira.“Incomodou muito. A imprensa me incomodou porque foram injustos. E o que incomodou, principalmente, foi um programa humorístico. Você vê o sofrimento do seu pai, da sua esposa. Esse pessoal faz brincadeira e esquece que existe a família”, contou.
Primeiras lembranças
Da Copa de 1974, eu lembro de algumas coisas. Gostava do Rivellino. Em 78, já estava com 11 anos e aí já brincava, queria ser jogador, gostava de bola. Lembro do Zico, Roberto Dinamite, Edinho. Mas realmente a Copa que eu torci, que eu vi, foi a de 1982. Eu já jogava na base do Flamengo. Você já entende de futebol, os meus ídolos estavam ali – Júnior, Leandro, Zico, Falcão. Edinho não era titular, mas eu gostava muito. Aquela Seleção encantou o mundo. Chorei muito na eliminação. Em 1986, foi o ano em que subi para o profissional do Flamengo.
A Copa de 1994 vista de longe
A minha primeira convocação para a Seleção foi em 1989. Tinha 21 anos e sabia que tinha uns caras na minha frente, mas como fui convocado para muitos jogos, tinha expectativa.
Acompanhar de longe é um pouco triste, mas pensei que ainda teria tempo. Duro é quando você não é convocado já com 30. Aí, acabou. Mas eu estava iniciando a carreira. Quando os resultados não vêm, você pensa: “Se eu tivesse ido, poderia ajudar”. A Seleção não fez uma boa Copa. Nos bastidores, foi desorganizada. Havia divergência entre jogadores, festa. E isso acabou sendo importante para a nossa conquista de 1994.
Convocação para 1994
Eu já sabia que ia para a Copa. Eu fiz as eliminatórias, tinha feito muitos jogos amistosos. Comecei a ganhar títulos. Em 90, fui campeão da Copa do Brasil. Em 91, campeão carioca. Em 92, campeão brasileiro. Em 93, campeão paulista e campeão brasileiro... Isso tudo me deu experiência, credibilidade e aprovação de todos, do treinador, jogadores, da imprensa, do torcedor. Fiz uma eliminatória boa. Quando terminou o último jogo, eu já sabia. Não fiquei na expectativa na convocação final. Não me lembro de ficar sentado no sofá esperando, como fiquei em 1998, e não deu.
Eliminatórias
A gente perdeu para a Bolívia e foi a primeira derrota da Seleção em uma eliminatória. Então a gente ficou marcado negativamente na história. E ainda empatamos com o Equador. Não vencemos os dois primeiros jogos, a pressão era forte da mídia e isso se estendeu para o torcedor. Acho que aquilo fortaleceu o grupo.
Fica Parreira
Eu lembro que, já na Granja, o Parreira reuniu o grupo e ia pedir para sair. Aí, os mais experientes – Branco, Ricardo Rocha, Dunga, Jorginho, Ricardo Gomes – que já tinham jogado a Copa de 1990 e sabiam que o ambiente lá foi crucial para a Seleção ir mal, sabiam também que a conduta e o profissionalismo do Parreira seriam fundamentais. O grupo fechou e pediu a permanência dele, abraçou e falou que íamos juntos. Tenho certeza de que a gente começou a ganhar a Copa ali.
Perda da mãe
Não deixei transparecer isso na Seleção e nem na mídia. Tem tanta gente que sofre, né? Quando você tem um certo nome, pode-se criar um clima de coitadinho. Alguns amigos sabiam o que eu estava passando. Ela teve isquemia, juntou com depressão, teve paralisação de um lado do corpo, porque teve um derrame. Foi um processo longo, durante a eliminatória toda. Aí ela deu uma melhorada boa e o médico disse para montarmos uma espécie de hospital em casa. Ela foi recuperando movimentos, fala, então a gente tinha esperança de que ficasse boa.
No sábado, na véspera do último jogo contra o Uruguai, treinamos no Maracanã, o local do jogo. O meu pai foi na concentração me visitar e comentou que ela tinha piorado e voltou a ser internada. Fui para o jogo e nos classificamos. Ganhamos de 2 x 0. Todo mundo estava naquela alegria, comemorando, e sabe quando você não está no clima? Eu não conseguia ficar feliz, não estava bem.
Fui direto de lá para o hospital. Quando cheguei, minha mãe estava entubada. Aí só deu tempo de entrar com minha esposa e apertar a mão dela. No dia seguinte, as manchetes eram de classificação para a Copa e eu estava no cemitério enterrando minha mãe. Ganhar a Copa foi para ela. Vem toda a história. Se minha mãe estivesse aqui... Mas foi por ela, uma profecia dela, um sonho que ela tinha, ela sempre me apoiou.
Sistema tático
Fomos uma Seleção muito cobrada pelo sistema tático implantado. Era um futebol de organização, uma mudança no conceito. O Parreira organizou essa parte sem a bola, organizou a concentração, impôs seriedade, profissionalismo e isso não foi entendido muito bem por boa parte da imprensa.
O time não jogava aquele futebol lindo e o pessoal não estava entendendo a formação tática. O Parreira queria igualar ao futebol europeu sem a bola. E aí sim a qualidade individual ia aparecer, porque a gente jogava com Romário e Bebeto que estavam no melhor momento da vida. Então, se a gente não tomasse gol, a gente ia fazer pelo menos um.
Palmeiras x Seleção
A gente abraçou o sistema tático, mas para mim foi ruim. Havia jogadores cruciais para isso dar certo, e eu era um deles. O meu futebol não apareceu muito na parte individual. Na época, fui crucificado por não ter jogado como jogava no Palmeiras.
O meu posicionamento era diferente, mas a minha importância para o jogo era igual. Você é um meia de liberdade, de movimentação, de chegada e, de repente, você é um meia que fica mais guardado em um setor do campo, para acompanhar um lateral, para fechar como volante, tudo isso muda. Mas o título é fundamental porque mostra que o sistema deu certo.
Eu gostaria de ter tido mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, sempre fui um jogador obediente taticamente e coletivo, sempre pensei no “nós” e não no “eu”.
Apelido de Enceradeira
Incomodou muito, a imprensa me incomodou, porque foram injustos. E o que incomodou, principalmente, foi um programa humorístico. Você vê o sofrimento do seu pai, da sua esposa. Esse pessoal faz brincadeira e esquece que existe a família.
Jogo contra a Holanda
Todo mundo achava que era uma final antecipada e a gente fez logo 2 x 0. Eles eram muito bons. Aí a gente sofreu o empate. Dentro do jogo, a carga psicológica fica melhor pra eles. Mas vêm aquelas coisas do destino. Foi o primeiro jogo em que o Branco entrou. Se o Leonardo não fosse expulso no jogo anterior, o Branco não teria jogado, então é coisa que tem de acontecer. O Branco tinha que marcar o melhor jogador deles, o rápido Overmars. Eu tinha que ficar mais atrás ainda para proteger o Branco, e justamente ele bateu a falta que originou o gol da vitória.
Semifinal contra a Suécia
O melhor jogador em campo foi o goleiro deles. Aquele chute que eu dei de fora da área, além de ser difícil de defender, ainda desviou em um cara. Ele estava adiantado, conseguiu voltar e tirou de mão trocada.
Tinha aquela ansiedade de semifinal, mas a confiança era grande. A gente tinha a convicção do sistema de jogo, da função de cada um. O placar quase sempre foi 1 x 0, mas se você ver, nenhum time foi melhor que o Brasil nos jogos. Nós ganhamos os jogos de placar magro, mas com superioridade.
A final
Tem jogo que tem muito menos chance que aquele jogo ali e acaba 2 x 0, 3 x 0. Eles tiveram chance também. O Romário fez gol muito mais difícil do que os que ele perdeu naquele jogo. Eu também perdi um. Foi 0 x 0, mas houve várias chances de gol e teve qualidade técnica. Era para ser nos pênaltis.
No segundo tempo da prorrogação, eu saí. Parreira ousou e colocou mais um atacante. Quando terminou, nosso grupo estava bem, a ponto de o Romário, que não era escalado para bater pênalti, levantar a mão e pedir para bater. O melhor batedor dos treinamentos era o Márcio Santos e ele perdeu. Eu era um dos escalados para bater, assim como o Raí, mas ele também não estava mais entre os titulares. Aí entrou o Branco, entrou Dunga, tinha o Bebeto para bater o último, Márcio Santos e o Romário.
Foi por competência. Não foi por sorte. Treinamos, nosso time estava encorpado, melhor no jogo, confiante para a batida. A gente tinha um goleiro frio, que assustava. O Baggio conhecia o Taffarel, tinha que bater forte, tirar dele.
Quando acabou foi êxtase, festa. Você não sabe para onde correr, como comemorar. Você campeão do mundo! Nunca tinha ganhado aquele título. Não planejei como ia comemorar, mas abracei meus companheiros, dei a volta olímpica com a taça, coloquei a minha medalha.
Recepção em Nova Iguaçu
Quando cheguei ao Brasil, foi legal demais: Recife, Brasília, Rio. Mas especial foi quando cheguei à minha cidade, Nova Iguaçu. Minha rua foi fechada, meus amigos de infância fizeram festa. Veio a banda do colégio que estudei, tinha samba. Mas eu precisava descansar e de tarde fui dormir um pouco. Quando eu acordei, 20h da noite, todo mundo ainda estava na rua. Aí você vê a importância do que você participou, para o seu País, seu estado, sua cidade. Isso foi sensacional.
Copa de 2014
Estou muito confiante, acho que Felipão e Parreira montaram um grupo forte, temos jogadores talentosos, jogamos no nosso país, a nossa torcida está apoiando. O Brasil é favorito, mas tem outras seleções fortes: Argentina, Alemanha, Espanha, as tradições de Itália, de França, podemos ter surpresas, como a Bélgica que fez ótima campanha. O nosso País está forte, mas logo na próxima fase podemos pegar uma pedreira. E em um jogo acontece de tudo. Um lance pode definir. Se tudo correr bem, sem surpresa, é favorita. Estou torcendo muito.
Fonte:
Portal da Copa
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