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Portal publica o 34º texto da série de crônicas de Nelson Rodrigues

Crônicas

Textos estão reunidos no livro "A Pátria de Chuteiras", lançado pelo Ministério do Esporte. Crônicas foram escritas entre 1950 e 1970
por Portal Brasil publicado: 15/05/2014 19h15 última modificação: 30/07/2014 02h35

Até o mês de junho, vésperas da Copa do Mundo, o Ministério do Esporte publica uma série de crônicas do escritor Nelson Rodrigues. Os textos, escritos entre as décadas de 1950 e 1970, foram reunidos no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo em dezembro passado.

São 40 crônicas selecionadas pelo próprio ministro em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

Confira abaixo a 34ª crônica da série: “João sem medo”.

"E aí está o primeiro e maravilhoso defeito: — uma Copa do Mundo é uma selva de gângsteres. Dirão que é exagero. Exagero, uma ova. Perdão. Exagero, vírgula."

João sem medo (1)

Amigos, não acreditem, pelo amor de Deus, que as qualidades influem no amor. Influem pouquíssimo ou nada. Nunca me esqueço de um vizinho que tive na minha infância profunda. Era um santo da cabeça aos sapatos ou, melhor dizendo, da cabeça às sandálias. Do berço ao túmulo, não praticou uma má ação. Era todo amor, todo bondade. E só me admira que não andasse com um passarinho em cada ombro.

Pois bem: — um dia, casou-se. Para usar uma velha imagem minha, direi que entrou por um cano deslumbrante. Já os conhecidos diziam-lhe: — “Cuidado, que um dia tua mulher te dá bola de cachorro.” E, certa vez, na presença de visitas, ela o destratou de alto a baixo: — “Eu queria um marido, não um santo.” E ainda completou: — “Tenho nojo de tua bondade.” Em outra ocasião, a víbora explodiu: — “Arranja um defeito. Ou arranjas um defeito ou me desquite.” Não foi possível. A perfeição do infeliz aumentava de 15 em 15 minutos.

Até que se separaram. E quando um inocente do Leblon perguntou à víbora se ele a maltratava, ela urrou: — “Aquela besta é um santo!” Por aí se vê, a virtude exagerada, em vez de favorecer o amor, pode liquidá-lo. Estou farto de ver sujeitos que são amados pelos seus defeitos.

Por exemplo: — o meu caro João Saldanha. Tenho-lhe um afeto de irmão. Quebrei minhas lanças para que a CBD o escolhesse. [João] Havelange e Antônio do Passo tiveram um momento de lucidez ou mesmo de gênio, um momento digno de um Disraeli, e o chamaram. Ao ter a notícia, berrei: — “É o técnico ideal!” Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio me perguntar: — “Você acha que o João tem as qualidades necessárias?” Respondi: — “Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.” E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminosíssimos.

Por exemplo: — é um furioso. Não acendam um fósforo perto dele que o João explode. E aí está o primeiro e maravilhoso defeito: — uma Copa do Mundo é uma selva de gângsteres. Dirão que é exagero. Exagero, uma ova. Perdão. Exagero, vírgula. Tudo é possível na Jules Rimet, menos uma boa ação. Portanto, se o João é um Tartarin ou, melhor dizendo, se cospe mais fogo do que o dragão de são Jorge, melhor para o Brasil. O técnico não precisa apenas entender de bola. Antes de mais nada, precisa ser um guerreiro.

Outro defeito: — ele fará qualquer negócio para o Brasil ser campeão do mundo e voltar com o caneco de ouro. Dirão vocês: — “Mas é feio!” Ora, ora. Desde quando o bonito ganhou a Copa? De mais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 66 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com suas qualidades, o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça.

Mais outro defeito do João: — doutrinou o escrete para não levar desaforo para casa. Os lorpas, os pascácios, os bovinos hão de perguntar: — “E a esportividade?” Respondo que, na Copa, a esportividade é uma piada de necrotério. Dirão que em 58 e 62 fomos bonzinhos. Mas os demais concorrentes fizeram o diabo. E nós fomos bonzinhos graças ao nosso bom subdesenvolvimento.

Mais um defeito do Saldanha: — a dionisíaca e, ao mesmo tempo, santa molecagem carioca. Foi para a Europa estudar os adversários. Mas lá não perdeu tempo. Pôs a boca no mundo: — “O futebol europeu é uma carnificina!” Disse, ou por outra, berrou isso em todos os idiomas. Hoje, até os esquimós sabem que, na Europa, os jogadores bebem o sangue do adversário como se groselha fosse. Ora, o que o Saldanha está fazendo, de país em país, é um terrorismo bárbaro. Está coagindo os europeus, e todos os concorrentes. Se há um foul modesto ele espalha aos quatro ventos: — “Assassinato! Assassinato!” Já os juízes de 70 estão acuados. Não queiram saber o que o João não fará no próximo Mundial.

Ele fez a advertência mundial: — “Meu jogador não dará o primeiro tiro. Mas, se começarem, nós vamos acabar com a guerra.” E os europeus, uns latagões, com uma saúde de vaca premiada, já tremem diante do João e já começam a sentir um prévio e insuportável sentimento de culpa. Creiam que, com os defeitos de “João sem medo”, o Brasil ganhará a Copa.

O Globo, 5/11/1969

(1) Título sugerido pela edição do livro À sombra das chuteiras imortais (Companhia das Letras, 1993). A crônica foi publicada originalmente na coluna “À sombra das chuteiras imortais” sem título. (N.E.)

Clique neste link e confira arquivo em pdf com a íntegra do livro "A Pátria de Chuteiras"

Fonte:
Ministério do Esporte

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