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Crônicas de Nelson Rodrigues: A força da burrice

Literatura

Futebol foi a metáfora utilizada pelo escritor para apresentação e divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso
por Portal Brasil publicado: 02/06/2014 19h33 última modificação: 30/07/2014 02h29

O Portal da Copa publica, até o mês de junho, às vésperas da Copa do Mundo, uma série de crônicas escritas por Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1970. Os textos foram reunidos no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado em dezembro de 2013 pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

São 40 crônicas selecionadas em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

 A força da burrice

"Agora, oficializa-se a mentalidade segundo a qual não há futebol por aqui. Somos ótimos em peteca, bola de gude, cuspe à distância, menos de bola."

 Amigos, aprendo muito na grande resenha da TV Globo. Cada noite dominical é, para mim, e há de ser para a cidade, uma luminosa e tremenda lição de vida. Mal comparando, a nossa mesa tem um formidável valor simbólico. Somos, ali, o Brasil. Não exagero e repito: — assim como o Gonçalo Mendes Ramires representava Portugal, nós representamos esta grande e comovente pátria.

Ainda ontem, soube eu de uma que considero uma página divina. Imaginem vocês que participou da Resenha, excepcionalmente, um colega paulista; e ele fez uma revelação maravilhosa. Em suma: — contou que um dos nossos paredros, explicando a ausência do futebol brasileiro no Pan-Americano, declarou o seguinte, dois-pontos: — “O nosso futebol não tem nenhuma chance.”

Vejam vocês a força da burrice. Com uma simples e sucinta resposta, a autoridade referida explicou todo o lúgubre insucesso brasileiro na Copa de 66. Como poderíamos vencer na Inglaterra se um dos nossos dirigentes acredita, e piamente, que temos possibilidades em qualquer outra modalidade esportiva, menos no futebol? O pobre-diabo ainda não desconfiou que somos os bicampeões do mundo; que Pelé é brasileiro; e que uma das poucas coisas que funcionam no Brasil é, precisamente, o futebol.

Ao ouvir tamanha insanidade, um colega rosnou, ao meu lado: — “Se até o futebol brasileiro não presta, vamos fechar o Brasil.” Mas pergunto: — que fazer contra a burrice? Desconfio que não há reação possível. Na ignominiosa Copa, até os paralelepípedos de Boca do Mato sabiam que o Brasil precisava de um time. Não se joga futebol sem um time. Pois bem: — nas barbas indignadas de oitenta milhões de brasileiros, não se fez nada. O Brasil não teve, jamais, em momento nenhum, um mísero time.

Agora, oficializa-se a mentalidade segundo a qual não há futebol por aqui. Somos ótimos em peteca, bola de gude, cuspe à distância, menos de bola. Mas não foi só, amigos, não foi só. Em dado momento, um dos meus companheiros de canto toma a palavra e declara o seguinte: — na Copa do Mundo, Pelé foi muito bem-tratado, não sofreu nenhuma violência.

Vejam vocês e pasmem: — Pelé tratado, na Inglaterra, a pires de leite como uma gata de luxo. Portanto, o videoteipe é um vigarista; idem o cinema; idem a crônica mundial. A imagem mostra o crioulo ceifado, exterminado por trás. Cai, na primeira agressão; levanta-se, para ser derrubado outra vez. Tudo pelas costas. E vem um colega e afirma: — “Não houve nada disso. É mentira do videoteipe, do cinema, das fotografias e do próprio olho humano.”

Mas justiça se faça à maioria da Resenha. Ao ouvir tal iniquidade, cada um de nós se levantou com a ira de um Zola. Na sua indignação cívica, companheiros subiam pelas paredes como lagartixas profissionais. Eu estava vendo a hora em que íamos, todos, cantar o Hino Nacional.

Fonte:

Portal da Copa

 

 

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