Você está aqui: Página Inicial > Governo > 2010 > 02 > A abolição que não veio

Governo

A abolição que não veio

A escravidão foi abolida oficialmente na Mauritânia em 9 de novembro de 1981 pelo decreto nº 81.234. Quase três décadas depois, as relações sociais no país indicam que naquele país africano a “lei áurea” simplesmente não pegou
publicado: 09/02/2010 12h13 última modificação: 28/07/2014 11h29

A escravidão foi abolida oficialmente na Mauritânia em 9 de novembro de 1981 pelo decreto nº 81.234. Quase três décadas depois, as relações sociais no país indicam que naquele país africano a “lei áurea” simplesmente não pegou.

A população é composta de dois grupos étnico-raciais e culturais: os negro-africanos e os árabo-berberes. Os negro-africanos foram os primeiros a ocupar a região, por volta do século III a.C. Este grupo era resultado de interpenetrações de sociedades diversas. A partir do terceiro século da era cristã, os povos negros começaram a manter intensas relações com os berberes recém-chegados da região do Magrebe. Estes, por sua vez, chamados de mouros beydanes, também eram oriundos da mistura de vários povos. Por isso, não faz sentido pregar a pureza étnica, cultural ou racial de qualquer daqueles grupos. No entanto, esta crença existe.

No mundo rural, a escravidão predomina na vida doméstica, de maneira aberta e moralmente aceita. Já no ambiente urbano, os árabo-berberes fazem uso de mecanismos sutis: seus cativos negro-africanos trabalham como vendedores de água, descarregadores nos portos, e nas tarefas domésticas. O dono não gasta quase nada para alimentar seu escravo. E este tem a função de frutificar ao máximo o investimento do dono.

As sociedades negro-africanas castas justificam seus mecanismos com base em uma ordem divina ou biológica. A ruptura deste sistema é quase impossível, já que há uma submissão quase cega. A luta pela mudança de mentalidade fica mais complicada quando não há vontade política. Durante o período colonial, a França nunca lutou contra as práticas escravocratas até 1960. Para não perder o apoio da classe dirigente e manter o controle sobre a população, as autoridades coloniais faziam vista grossa quanto à escravidão.

A persistência dessas práticas tem como finalidade um rígido controle político sobre as sociedades negro-africanas. Além disso, ter escravos implica maior prestígio social, uma vez que os árabo-berberes sempre viram a necessidade de trabalhar como algo indigno de pessoas bem-nascidas. Postura que, aliás, era encontrada também no contexto da escravidão brasileira.

Desde o início da década de 1980, grupos negro-africanos e arabo-berberes da Mauritânia vêm denunciando tratamentos discriminatórios nos planos profissional, habitacional, de acesso a terras e nas políticas públicas. Qual não foi minha surpresa ao colocar no Google as palavras “esclavage en Mauritanie”. Há muitos artigos e relatórios de órgãos internacionais e ONGs mauritanas – como a SOS-Esclaves e Mouvement El Hor — em prol da erradicação total das práticas escravocratas.

Alain Pascal Kaly é pós-doutorando no Departamento de História da Unicamp.

(RHBN. Nº 32. Maio 2008. P. 23)


Confira o texto na íntegra no site da Revista de História da Biblioteca Nacional

Todo o conteúdo deste site está publicado sob a licença Creative Commons CC BY ND 3.0 Brasil CC BY ND 3.0 Brasil

banner_servico.jpg

Últimos vídeos

Temer explica como Estados irão quitar dívida com a União
Presidente em exercício, Michel Temer, se reuniu com governadores para discutir a dívida dos estados com a União e firmar acordo para o pagamento
Acordo suspende pagamento da dívida dos Estados até o fim do ano
A medida faz parte de acordo entre os estados e o presidente em exercício, Michel Temer, anunciado nesta segunda-feira (20)
Michel Temer acompanha obras dos Jogos Rio 2016
Presidente em exercício Michel Temer esteve no Rio de Janeiro, onde acompanhou os ajustes finais das instalações para os Jogos
Presidente em exercício, Michel Temer, se reuniu com governadores para discutir a dívida dos estados com a União e firmar acordo para o pagamento
Temer explica como Estados irão quitar dívida com a União
A medida faz parte de acordo entre os estados e o presidente em exercício, Michel Temer, anunciado nesta segunda-feira (20)
Acordo suspende pagamento da dívida dos Estados até o fim do ano
Presidente em exercício Michel Temer esteve no Rio de Janeiro, onde acompanhou os ajustes finais das instalações para os Jogos
Michel Temer acompanha obras dos Jogos Rio 2016

Últimas imagens

Presidente Michel Temer durante apresentação do novo regime fiscal aos líderes da base aliada da Câmara e do Senado
Presidente Michel Temer durante apresentação do novo regime fiscal aos líderes da base aliada da Câmara e do Senado
Foto: Beto Barata/PR
Michel Temer durante visita à Arena Carioca 1 nesta terça-feira (14)
Michel Temer durante visita à Arena Carioca 1 nesta terça-feira (14)
Foto: Beto Barata/PR
O ministro interino do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Dyogo Oliveira, ressaltou em entrevista coletiva que medida propiciará economia de cerca de 230 milhões
O ministro interino do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Dyogo Oliveira, ressaltou em entrevista coletiva que medida propiciará economia de cerca de 230 milhões
Foto: Portal Brasil
Guilherme Campos afirmou comprometimento para que os Correios possam ser sempre uma empresa de confiabilidade.
Guilherme Campos afirmou comprometimento para que os Correios possam ser sempre uma empresa de confiabilidade.
Foto: Correios
Ministro Eliseu Padilha durante coletiva de imprensa para falar sobre a preparação para os Jogos Olímpicos Rio 2016
Ministro Eliseu Padilha durante coletiva de imprensa para falar sobre a preparação para os Jogos Olímpicos Rio 2016
Foto: Carolina Antunes/PR
O ataque ocorreu no centro histórico da cidade, bairro  frequentado por turistas e estudantes.
O ataque ocorreu no centro histórico da cidade, bairro frequentado por turistas e estudantes.
Vladimir Platonow/ Agência Brasil
O esforço, afirma Temer, é para, no final do seu governo, entregar um País equilibrado na política e na economia
O esforço, afirma Temer, é para, no final do seu governo, entregar um País equilibrado na política e na economia
Foto: Beto Barata/PR
Somente em Salvador serão entregues 2.800 unidades
Somente em Salvador serão entregues 2.800 unidades
Foto: Isac Nóbrega/PR

Governo digital