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Um pé lá, outro cá

Piauí dividiu-se entre os que queriam permanecer ligados a Portugal e os que defendiam a adesão ao Rio de Janeiro
publicado: 09/02/2010 16h57 última modificação: 28/07/2014 11h29

O Piauí dividiu-se entre os que queriam permanecer ligados a Portugal e os que defendiam a adesão ao Rio de Janeiro

A notícia do Grito do Ipiranga não demorou a chegar ao Piauí. Já em 30 de setembro, o juiz de fora da Parnaíba, João Cândido de Deus e Silva (1787-1860), instava a Junta de Governo da província a aclamar D. Pedro imperador. E argumentava: “A melhor, a maior, a mais rica, a mais populosa parte do Brasil tem se declarado a favor da causa da independência; como persuadir-nos que o resto não siga a mesma causa? Ou quererão os povos olhar de sangue frio o seu país dividido, seguindo o sul um sistema e o norte outro?”

A Junta, dominada pelo partido português, responderia que sim, como deixou claro no ofício enviado em 14 de janeiro de 1823 ao general Labatut. Nele afirma-se que Piauí, Maranhão e Pará teriam maiores vantagens na união com Portugal do que com o Rio de Janeiro, pois as comunicações eram mais fáceis com Lisboa, e os bens que produziam se vendiam mais facilmente em Portugal do que no Rio. Para a Junta, caso a província aderisse a D. Pedro, estaria trocando a dependência de Portugal pela do Rio de Janeiro, que lhe parecia menos vantajosa.

A argumentação era manca. O Piauí, com apenas 70 mil habitantes e pequenos núcleos urbanos, os maiores dos quais eram Oeiras, capital da província, e a vila da Parnaíba, seu único porto marítimo, tinha como base da economia os seus enormes rebanhos. Exportava couro para Portugal, mas os grandes mercados para seu gado eram Maranhão, Pernambuco, Bahia e, sobretudo, Minas Gerais.

Mas Deus e Silva não ficara à espera da reação da Junta. Com outros patriotas, sobrepôs-se, na Parnaíba, ao partido português e proclamou, em 19 de outubro de 1822, a adesão à Independência. A Junta de Oeiras reagiu prontamente e, para reconduzir a vila à obediência, enviou contra ela o governador de Armas, o major português João José da Cunha Fidié (?-1856). Às suas tropas somaram-se outras, vindas do Maranhão, e o brigue de guerra D. Miguel. Sem condições de resistir, os patriotas abandonaram a vila e se refugiaram no Ceará. Um grupo deles, comandado por Leonardo de Carvalho Castelo Branco (1788-1873), voltaria ao Piauí, para tomar pelas armas Piracuruca e declarar, em 22 de janeiro de 1823, a adesão do povoado à Independência. E repetiu o feito, duas semanas depois, em Campo Maior.

Esse Leonardo – que, em cumprimento de promessa, ao sair da cadeia mudaria o nome para Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco – foi, apesar de romântico pelo temperamento e profundamente católico, um iluminista tardio. Poeta, filósofo e cientista, inventou uma máquina para descaroçar algodão e outra com que pretendia ter resolvido o problema do moto-contínuo. Entre suas obras constam Memória acerca das abelhas da província do Piauí e Astronomia e mecânica leonardina, até hoje inéditas, e os poemas O santíssimo milagre, A criação universal e O ímpio confundido, trabalhos de ambição e fôlego, o segundo com mais de quatro mil versos e o terceiro, com quase 6.500. Filosofava em versos. Em versos condenou a escravidão. E em versos revelou-se um excelente animalista.

Com Fidié na Parnaíba, os partidários da Independência, na madrugada de 24 de janeiro, empolgaram de surpresa Oeiras, proclamaram a adesão à Independência e elegeram um novo governo provincial, tendo à frente o brigadeiro Manuel de Sousa Martins (1767-1856).

Fidié encaminhou-se para a capital. E em 13 de março, junto ao Rio Jenipapo, na altura de Campo Maior, topou com um exército improvisado que Sousa Martins, o futuro visconde da Parnaíba, mandara contra ele. Os portugueses ganharam a batalha, mas nela perderam a bagagem com armas, munição e botica.

Inseguro num ambiente que lhe era crescentemente hostil, duas semanas depois Fidié abandonou o Piauí e instalou-se em Caxias, no Maranhão. Os piauienses saíram atrás dele e, somados a tropas cearenses e pernambucanas, além de maranhenses partidários da Independência, sitiaram a cidade onde se abrigara. O major acabou por render-se em 1º de agosto, sendo feito prisioneiro e levado primeiro para Oeiras e depois para o Rio de Janeiro, de onde seria devolvido a Portugal. Com sua derrota, enfraqueceu-se de vez o partido lusitano, e a adesão do Piauí à Independência tornou-se irreversível.

Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, um dos líderes independentistas mais ativos e desassombrados, soube da vitória no cárcere do Limoeiro, em Lisboa. Fora preso pelos portugueses em 1º de março e mandado a ferros para Portugal. Anistiado em setembro, regressou ao Piauí, onde se envolveu na Confederação do Equador. Refugiou-se então em Lisboa e ali viveu até 1850, quando voltou ao Brasil. Após morar no Maranhão, na Bahia e no Rio de Janeiro, terminou seus dias no Piauí, com 85 anos.

Alberto da Costa e Silva é membro da Academia Brasileira de Letras e autor de O quadrado amarelo (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009).


Saiba Mais:

BRANDÃO, Wilson de Andrade. História da independência do Piauí. Teresina: Cia. Editora do Piauí, 1959. 
COSTA, F. A. Pereira da. Chronologia histórica do Estado do Piauhy. Recife: Jornal do Recife, 1909.
NEVES, Abdias. A Guerra do Fidié: uma epopéia brasileira. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
(ANO 3 – n. 32 – pp. 28-29)

Revista de História da Biblioteca Nacional

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