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Visões e revisões
De um mesmo evento podem surgir múltiplas versões. Bom exemplo disso é a adesão do Piauí à Independência. Ao longo do tempo, os historiadores valorizaram diferentes aspectos da guerra (muitas vezes contraditórios), criaram e desmascararam heróis.
Os primeiros registros surgiram ainda no século XIX,no embalo dos estudos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que se dedicava a criar uma identidade para o recém-fundado país – a começar pelo seu passado. Mas essas pesquisas consistiam apenas em apresentar os fatos e datas mais conhecidos, com base nos arquivos locais e regionais.
Na década de 1920, o olhar começa a mudar. Ganha espaço o movimento regionalista, influenciado pela Semana de Arte Moderna. Pesquisadores piauienses criticam os silêncios e os equívocos dos livros de História do Brasil sobre o tema. Hermínio Conde é um deles: em artigos publicados em jornais cariocas, maranhenses e piauienses,
analisa as origens do povo da região e enfatiza a disputa Norte-Sul, com seus desdobramentos políticos, culturais e literários.
É hora, também, de reavaliar o papel dos heróis e dos mártires. O português João José da Cunha Fidié, comandante das Armas que infligiu derrotas aos piauienses, passa a ser retratado como incompetente e covarde. Justo o oposto das descrições do século anterior, que o pintavam como bravo guerreiro e símbolo do terror. E nem mesmo o líder das tropas brasileiras, brigadeiro Manoel de Sousa Martins, é unanimidade. O historiador Clodoaldo Freitas, por exemplo, o considera um nulo, um “meteoro maldito”, identificado com tudo de ruim que aconteceu no Piauí imperial. Outros personagens acabam relegados a papéis secundários, como os independentes João Cândido de Deus e Silva e Simplício Dias da Silva.
Essa tendência revisionista, de glorificar ou contestar os protagonistas históricos, é deixada de lado pela historiografia moderna. A partir dos anos 1950, as investigações concentram-se na participação popular. A preocupação com o social realça a experiência das pessoas comuns, dos anônimos da História. Em consequência disso, os piauienses passam a se apropriar daquele evento, transformado em tema de contos, romances, poemas, peças teatrais, filmes de cinema e artigos para a imprensa. A iniciativa de conferir dimensões épicas à luta da Independência era incentivada pelo Estado, patrocinador de monumentos, memoriais e comemorações.
Combate, batalha, guerra, luta, epopeia: ao longo da História, os episódios ocorridos nos arredores de Campo Maior ganham em densidade política e cultural. Principal tema da historiografia piauiense, a Independência é um símbolo – sempre em transformação – de como aquele estado se vê inserido na História do Brasil.
Teresinha Queiroz é professora de História da Universidade Federal do Piauí e autora de "Do Singular ao Plural" (Recife: Bagaço, 2006).
(RHBN. Nº 48. Setembro 2009. P. 30)
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