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Saúde

Pesquisadores obtêm resultados positivos em vacina experimental

Leishmaniose

Pesquisa revelou que o antígeno total de Leishmania amazonensis (LaAg) se mostrou eficaz em proteger animais
por Portal Brasil publicado: 01/04/2015 11h47 última modificação: 01/04/2015 11h47

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) estudam uma vacina experimental que, na etapa de estudos com animais, mostrou resultados positivos na proteção contra o parasita Leishmania braziliensis, principal agente causador da forma cutânea da leishmaniose no Brasil e nas Américas.

A pesquisa inovou duplamente: além de usar como modelo de estudo os hamsters dourados, que apresentam um quadro mais semelhante ao que acontece em humanos, foi testada a via de administração intranasal.

O estudo, realizado pelo Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas Médicas do IOC em parceria com o Laboratório de Imunofarmacologia do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta para o possível desenvolvimento de uma primeira vacina contra a leishmaniose.

Infográfico com os números da pesquisa

O desafio da leishmaniose cutânea

A forma cutânea da leishmaniose afeta cerca de 28 mil pessoas no Brasil a cada ano, segundo dados de 2013 do Ministério da Saúde.

O tratamento, além de causar muitos efeitos colaterais, é longo e exige o deslocamento do paciente até unidades de saúde, o que resulta em importantes taxas de abandono. “O problema é agravado por falhas no tratamento, além da resistência aos medicamentos existentes”, alerta Luzinei da Silva Couto, aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical do IOC e um dos autores do estudo. Nestas circunstâncias, prevenir a doença se torna ainda mais importante.

Atualmente, não existem vacinas disponíveis para humanos e a prevenção consiste basicamente em evitar contato com o mosquito-palha, inseto transmissor da doença.

O desenvolvimento de vacinas contra a L. braziliensis tem sido dificultado por conta do desafio de encontrar modelos experimentais que consigam reproduzir a forma como o parasita se manifesta em humanos. “Recentemente, foi demonstrado que o hamster dourado é um modelo adequado para o estudo da imunopatogênese da leishmaniose cutânea causada por L. braziliensis”, explica Silva-Couto.

Inovação dupla

A partir da descoberta do uso do hamster dourado como modelo para estudos, os cientistas avançaram nas pesquisas e chegaram a resultados positivos em estudos realizados com estes animais. Publicada na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases, a pesquisa revelou que o antígeno total de Leishmania amazonensis (LaAg) se mostrou eficaz em proteger os animais. Além do uso do hamster dourado, outro diferencial do estudo é propor uma forma de administração intranasal.

Na pesquisa, os animais foram divididos em um grupo que recebeu o candidato vacinal por via nasal, um grupo que recebeu a mesma substância por via intramuscular e um terceiro grupo, que funcionou como controle. Em seguida, cada grupo foi exposto à infecção por L. braziliensis.

Resultados

Diferentemente do que acontecia com a forma intramuscular de vacinação – que, em vez de proteger os animais, piorava as lesões cutâneas características da doença – a via intranasal foi capaz de proteger os hamsters contra a L. braziliensis.

A escolha por este método também foi motivada pela facilidade na aplicação: bastam poucas gotas, aspergidas diretamente na narina. “Observamos que, no que se refere à resposta imunológica, utilizar a via intranasal pode desviar a resposta do organismo para uma resposta protetora”, completa Eduardo Fonseca Pinto, pesquisador do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas Médicas do IOC e líder da pesquisa. A imunização intranasal também se mostrou eficiente com o uso de doses menores do antígeno.

Os números obtidos foram animadores e demonstram o potencial do candidato vacinal. “O grupo de hamsters que recebeu a vacina intranasal apresentou um total de 74% de animais protegidos total ou parcialmente”, comemora Eduardo. Isso mostra que os hamsters que receberam esse tipo de imunização tiveram maior resistência ao protozoário L. braziliensis quando comparados àqueles que receberam o antígeno por via intramuscular e ao grupo controle.

Com relação aos animais que manifestaram algum sintoma da doença, com as lesões na pele características de leishmaniose cutânea, os dados encontrados também foram positivos. Os pesquisadores analisaram as patas dos animais e notaram que 37% dos que receberam vacina intranasal apresentaram lesões menores que 1mm de espessura, consideradas brandas, enquanto essa porcentagem chegou a 22% e 19%, respectivamente, nos grupos de vacinação intramuscular e controle.

Outro dado importante veio com a análise da quantidade de parasitos presentes nas lesões: os animais do grupo que recebeu a imunização por via intranasal apresentaram números mais baixos que os demais grupos. “Esse resultado indica que, em contraste com a via intramuscular, que não alterou os parâmetros parasitológicos, a vacinação intranasal conduziu, não somente para o crescimento menor das lesões, mas também para a diminuição da carga parasitária”, conclui Silva-Couto.

Caminhos para uma futura vacina

Em estudos anteriores, conduzidos pelos pesquisadores Bartira Rossi Bergmann e Eduardo Fonseca Pinto, durante seu doutorado na UFRJ, já havia sido demonstrado que o antígeno LaAg, administrado por via intranasal, protegia parcialmente camundongos contra a espécie L. amazonensis. Porém, essa é a primeira vez que o antígeno é testado, por via intranasal, para a espécie L. braziliensis, a mais relevante no contexto brasileiro.

Com o uso dos hamsters, os pesquisadores conseguiram avançar nas pesquisas e demonstrar a eficácia do candidato vacinal na etapa de estudos com animais. O próximo passo é investigar os mecanismos imunológicos envolvidos na proteção promovida pela vacina e identificar os antígenos mais bem definidos e eficazes.

Apesar dos resultados animadores obtidos até o momento, ainda há um longo caminho até a aprovação para uso da vacina em humanos. A estimativa é de que sejam necessários de 10 a 15 anos para o início dos testes com pessoas. O tempo pode parecer longo, mas é necessário para o desenvolvimento seguro e eficiente de vacinas e considerado normal para pesquisas científicas.

Fonte:
Instituto Oswaldo Cruz

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